Devassa

Ato IV

Religião é um troço engraçado. Ou seriam os religiosos os palhaços? Provavelmente os dois. Quando eu era pequena, minha mãe me levava à missa todo domingo e eu ia, relutantemente no começo, mas com o tempo virou parte da velha rotina de fim de semana. Seja durante minha infância, adolescência ou atual idade adulta, nunca faltei um dia. No começo, não havia a velha desculpa de estar doente ou com dor, fosse ela qual fosse. Nada poderia atrapalhar nossa visita semanal à "casa de Deus". Agora, mesmo com a matriarca da família enterrada, eu continuo por lá, sentada naquela última fileira de bancos. A que todos evitam, provavelmente com vergonha de parecerem desinteressados. Eu não dou a mínima, por que, de fato, não é pelo longo, cansativo e patético sermão dos padres que eu estou ali. Para falar a verdade, até livro de auto-ajuda - coisa que me causa ojeriza - é melhor do que aqueles discursos cheios de lugares comuns e desgastadas menções a passagens de uma merda de livro compilado sei lá quando. Mas não é esse o caso e em tom de confissão, eu vos digo: adquiri um vício ao longo dos anos. Vicio este, de fato, bem peculiar, que me faz baixar a cabeça às vontades de uma genitora já morta e aos meus próprios desejos quiçá doentios de tão intensos. Vale salientar que isso nada tem a ver com Deus ou com qualquer tipo de adoração a Ele. Eu não acredito no filho da puta desde que comecei a estudar as mitologias dos diferentes povos e a me perguntar se tudo aquilo era mesmo mentira. Se mentira fosse, todo o resto também seria. O Deus católico incluso. O muçulmano também. Enfim, já dá para adivinhar a conclusão a que cheguei. O que interessa é minha famigerada dependência: Após a escolha de um vestido relativamente decente e antes do café da manhã, eu corro para o carro e dirijo até a igreja escolhida da semana, repentindo as opções periodicamente por motivos óbvios. Ao me direcionar às fileiras de bancos, levanto discretamente a saia, revelando uma bunda nua - sem calcinha - e sentando diretamente na madeira. Ali eu começo uma masturbação demorada, esfregando um clitóris molhado e inchado, deixando meu cheiro no líquido que escorre e encharca o assento, mordendo meu lábio para abafar eventuais gemidos, até gozar no último amém.

Uma maneira singular de pedir perdão pelos meus pecados?

Não.

Minha demonstração silenciosa de orgulho por cada um deles.

***

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Ato I

8 comentários:

Renato disse...

Isso me lembrou de uma vez, durante a missa, quando eu era (ou pensava ser) católico, e subitamente fui tomado por imagens onde eu sodomizava uma de minhas colegas de catequismo. Tive que esperar chegar em casa para me aliviar. Em momentos como esses, a vantagem é das mulheres...

Eu fico feliz que tenha gostado do meu texto. Ainda não sei como consegui escrevê-lo - vamos ver se consigo mais outros.

Renato Ziggy disse...

Nossa, quanto tempo, dona B... voltei no tempo. Tinha muitos anos que não te lia, mas vejo nitidamente que suas palavras estão muito mais nuas e cruas, muito mais intensas. UAU!!! Eu gosto dessa nudez, e da maneira como ela flui nas suas palavras... acho interessante, provocativo, dá vontade de ir... Obrigado pela visita... li os outros atos e apreciei cada curva. Beijo!

Jaya Magalhães disse...

B.,

Primeiro preciso dizer que ver que você voltou a atualizar o blog me fez sorrir. Você sabe que sou louca por tudo que você escreve. Que saudades que eu tava de te ler!

Reli todos os atos antes de chegar a esse. Entrei em êxtase. Pirei aqui.

Nada tão bom quanto pecar...

Um beijo.

ex-amnésico disse...

Meus parabéns! Eu achava que mijar no altar era a epítome da sacristia...!

...hummmm...


... devassa é pouco! ;)

Monstrinha disse...

Não sou muito simpatizante de religiões, mas também acho que cada um deve ser livre para fazer o que lhe deixa feliz.
No caso de algumas pessoas, a religião os deixa feliz.
No seu caso, a alegria está em quebrar regras, rsrsrsrs.

contosdealcovatenra disse...

E agora, como faço, se só consigo rezar para esta oração???

disse...

Mordaz, como sempre. Que bom que continuas a escrever. Eu tenho tentado.

Patrícia disse...

Fazia tempo que não passava por aqui, mas continuo adorando a maneira como escreve, livre!

Beijos