Anônimo

(Manchas dispostas ao longo de uma tela ordinária. As cores resumem-se ao vermelho e preto. Uma obra totalmente abstrata, mas que arranca inúmeras interpretações das bocas dos apreciadores)

Olhando o quadro, assim, simetricamente pendurado na parede da minha sala, reinando em absoluto, até poderia esquecer como surgiu o caos tricolor, adiciona-se aí o branco da tela, que posso contemplar diariamente:

Uma noite de insônia, um apartamento vazio, eu, um número de telefone, você. Nós dois, libido e um pouco de criatividade.

... na verdade, não. Eu não poderia esquecer e duvido que alguém me condene por isso.

O beijo estalado que você deu no meu ouvido ao entrar por aquela porta me fez encolher de agonia. Você sabe que eu não suporto a sensação, nem o som. Mas você é irritante assim. Aí veio a mordida no lóbulo da orelha, a língua no pescoço, os dentes nos lábios. Disso eu gosto, adoro, amo. As mãos se fingindo curiosas como se não conhecessem meu corpo, pensam que sou sonsa. Eu me faço de sonsa. É diferente. E aí estávamos nus, pele com pele, pêlo com pêlo. Não sei como, não sei onde, não sei por quê, não me pergunte, eu perdi meus sentidos naqueles instantes. Isso sempre acontece comigo. Mas você viu a tela, as tintas, os pincéis. Eles nem meus eram. Mas você pegou, abriu, usou, brincou de ser Dalí... em mim! Pintou meus seios de carmim e meu umbigo, ao redor dele, depois me virou de costas, me fez deitar na tela e me fodeu. Alí em cima da mesa da sala, posso vê-la agora mesmo enquanto escrevo. Engraçado, posso até ver o seu quadril se mexendo, seus braços segurando os meus, meu corpo balançando com seus movimentos. O vermelho se misturando ao branco, eu não posso ver, nem pude naquela hora. Só senti o friozinho da tinta preta caindo nas minhas costas quando você virou o pote e desenhou linhas dispersas ao longo da minha espinha, só com os movimentos da mão no ar. A mão que carregava o pote. A mesma mão que deu uma tapa na minha bunda antes de me virar e fazer minhas costas tocarem a tela, minhas pernas nos seus ombros e começou tudo de novo. Os movimentos, digo. No final você ainda fez questão de gozar em cima do quadro.

- É minha assinatura.
- Sua assinatura, uma porra!
- Exatamente.

Cara-de-pau. Existem poucas pessoas mais cínicas nesse mundo do que você. Eu gosto de cinismo. Desse cinismo que você tem. Aliás, já pensou o quanto seria útil se sua cara fosse mesmo um pau? Seriam dois paus e quatro bolas. Útil para um ménage à trois.

Agora, meus amigos, caros críticos de arte, tão renomados quanto a porra que assinou o quadro, continuem elogiando o meu bom gosto. Toda vez que eu escuto um deles, imagino o sorriso escancarado na cara do gato de Cheshire. É, Aquele da Alice.

- Quem é o pintor?
- Sei não, não tem o nome escrito aí.
- É anônimo...

E quem já viu foda ter nome?

16 comentários:

L.S. Alves disse...

Pra quem surge de tempo em tempo, não tem problema se sempre retornar trazendo uma pérola dessas. Um abraço moça.

disse...

O vermelho é uma cor quente e forte pra este tipo de ação.
A assinatura com porra também foi genial :D. Os artistas normalmente tem um jeitinho secreto de garantir a autenticidade do quadro, como pintar algo antes de por as cores.
O moço pode pedir DNA do quadro :D

Anônimo disse...

Essa moça, sempre libidinosa e original, nos surpreendendo com sua excitante e lasciva literatura. Nunca pare de escrever, Bárbara. E valeu pela idéia! Um dia, tento reproduzi-la! rsrs

Ataualpa Pereira disse...

A arte seria mais autêntica assim, pois há quem diga que todos somos artistas, mas só os artistas sabem disso.

Retornastes muito bem, moça. Nada como um ensaio sobre o tesão da arte (na arte) e outras formas de inspiração. E que inspiração.

Grande abraço!

Monaliza Brito disse...

Bom tê-la de volta!

Anderson disse...

Tanto quanto deixa saudades...vc deixa vontades.
Não suma mais.Nem vc, nem sua arte.

Anônimo disse...

quase um Leonardo da Vinci... que escrevia de forma espelhada... só privilegiados sabem os segredos.;)

ass: K

Renato Bittar disse...

Não importa o tempo que passe entre um e outro (seja por sumidas minhas ou suas), seus textos sempre conseguem me deixar fascinado.
Suas criatividade e as imagens tão nítidas que vc pinta (!) com suas palavras são incapazes de gerar indiferença.
Sou teu fã, ontem hj e sempre!

Beijo!

Michel disse...

Melhor do que qualquer filme erótico, esta foda foi eternizada tal qual uma obra de arte feita a dois corpos, só os artistas sabem que pariram a obra do prazer, uma foda épica com uma porra de quadro.

Lee disse...

Sempre contornando, desenhando linhas surreais, movimentando, em cada detalhe um respingo de V., de porra, de tinta, de arte.
Há uma assinatura, não há titulo, há um ato eternizado, não há uma única interpretação.
Não é o que se escreve em si que torna o seu autor eterno, mas aqueles que o leem e o interpretam. B., sempre carissima.

Sr. Personna disse...

Pintores são mais sensuais que poetas, não teria a menor graça se lambusar de versos! Com tinta é outra coisa...
Adoro cinismos, sexo recortado em rasgos de momentos, adoro esse tesão da lembrança, adoro!

Sr. Personna disse...

A tinta misturada ao gozo.
Que tesão de arte!
Me senti dentro em tantos retalhos e closes que me deixou saudoso de quando eu era pintor. Mas eu nunca fui.

Que assinatura!Que artista!

Bárbara (B.) disse...

I beg to differ! Escrever frases e poemas em corpos nus é "divertido" demais!

Natalia Bemfeito disse...

Versos sinestésicos Babi... Quase orgásticos. Uma mistura de sensações incríveis. E ainda com uma pitada de sarcasmo que sempre lhe foi rópria. Adorei. Você é como vinho, com o tempo está ficando melhor.

Amanda ou Alice? disse...

Oi Bárbara! Passando pra fazer uma leitura geral da sua genialidade. Beijo estalado!

LLype disse...

O erotismo e a sensualidade do texto estão ótimos. Muito bom ^^