Entrevistando Eduardo de Souza

Para quem já conhece a urgência das palavras de Edgar Sollers e para quem vai descobrir, agora, a beleza de todas elas, tenho o prazer de trazer ao D&L, em mais uma entrevista, o homem por trás do pseudônimo: Eduardo de Souza (34). Intenso, vivo e apaixonante, escreve no Do amor laico impropério. É uma espécie rara e encantadora, um amigo, acima de tudo, e um orgulho. Sempre. Declaro minha admiração e meu carinho imensuráveis e deixo minha marca até onde alcanço, com esse talento exposto aos olhos de quem passar por aqui.

B. - Diga, quem é o Eduardo?
E. - Sou incapaz de responder esta pergunta, Babs. No momento não estou em busca de definições a meu respeito. Só posso afirmar que meu signo é gêmeos. Logo, sou Castor e Pólux. Castor diz que sou apenas um homem, como todos os homens, e pede para que me esqueçam. Pólux diz que sou imortal e que não posso me incluir em plurais. E pede para que, aconteça o que acontecer, jamais me confundam.

B. - O que você busca na vida?
E. - Boa pergunta, coincidentemente estava pensando nisso hoje de manhã. As pessoas são movidas por dois motivos: o objetivo, ou a razão. Eu sou movido por razões e não por objetivos. Não pretendo chegar a lugar nenhum além do próximo passo, que foi programado pelo passo anterior. O que isso me trouxer, é bem vindo.

B. - E qual foi seu passo anterior?
E. - Posso dar um exemplo profissional, hoje eu trabalho com publicidade por que antes eu trabalhava num bureau e fui trabalhar num bureau por que antes eu era operador de copiadora numa empresa de engenharia e antes eu era office boy nessa mesma empresa. Uma coisa me levou ao melhor do que eu podia alcançar dentro de cada universo. The sea refuses no river.

B. - A quantas anda o seu pensamento nesse exato momento?
E. - Estou num momento darwiniano, lutando pela sobrevivência.

B. - O que é necessário para a sua sobrevivência?
E. - Respeito, que só se adquire sobrevivendo. Lembrei de uma passagem do Rocky, ele fala sobre isso. Sobre o quanto você pode aguentar até que a vida lhe dobre os joelhos e que o respeito só se adquire quando se consegue levantar de novo.

B. - Me indica um filme bom?
E. - The Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças) é maravilhoso. É um filme que eu teria escrito. American Beauty (Beleza Americana) ou Encaixotando Helena, também. Tem os que eu teria filmado, ou musicado, como Amélie... a fotografia e a trilha sonora são maravilhosas.

B. - Você citou alguns dos meus filmes preferidos (risos). E um livro, me indica também?
E. - A Insustentável Leveza do Ser. Se eu me esforçar tanto para vender um livro meu quanto eu me esforço pela Insustentável, serei um best seller. É o livro que leio de quando em quando para me localizar no mundo.

B. - Eu li por sua causa e me arrependi de ter demorado tanto. É maravilhoso. Falando em literatura, quando e como foi seu primeiro contato com a escrita?
E. - Sou um tanto exigente, leio bastante mas são poucos os autores que me agradam... Milan Kundera é um deles. Meu primeiro contato consciente foi com uns 5 anos, era um livro infantil chamado "O Menino que Queria Ser Estrela". Contava a história de um menino que tinha um cachorrinho e, claro, queria virar estrela. No final ele consegue, mas o cãozinho perde seu dono, seu amigo, seu companheiro. Lembro de chorar no final do livro.

B. - É difícil algo lhe tocar ao ponto de provocar o choro?
E. - De maneira geral, é difícil. Mas eu choro toda vez que assisto o Rocky. E toda vez que leio a Insustentável por razões diferentes.

B. - O que é arte pra você?
E. - A arte é o que me resta de sagrado. Para mim a arte é a expressão daquilo que nos torna diferente e absolutamente iguais. Mayakoviski pagou com a vida a dor da existência. O desespero de Cobain não era teatro, era verdade. Van Gogh fez o mesmo, e outros tantos. Nos forneceram força e fraqueza, nos ofereceram todas as grandezas e baixezas do ser humano. Isso é arte. Arte não tem a ver com controle, tem a ver com descontrole. A técnica gera o controle. Controle é trabalho acadêmico. Controle não é arte, é entretenimento. Entretenimento é passatempo, é show bussiness. Não é o que me instiga. Para mim, Elvis foi um falsário enquanto artista. Era um cara manipulável, inseguro, não escolhia nem as músicas que cantava, ele nunca compôs nada. Na minha visão, Elvis era uma mentira. Assim como Vinícius era uma mentira. Esses não fizeram arte, fizeram entretenimento de excelente qualidade. Não consigo acreditar em Vinícius de Moraes. Ele era de família influente, diplomata, filho de diplomata, que trepava com as empregadas da família, e se tornou um exímio sedutor. Foi um desses que veio para a vida a passeio, é incontestável sua habilidade com as letras, mas não consigo acreditar que ele tivesse derramando de verdade uma lágrima sequer por uma mulher, quem quer que seja. Ele brincava com os plurais em seus poemas, os elogios se repetem, usava as mesmas palavras para encantar mulheres diferentes. Usava fórmulas que as mulheres adoram acreditar e amou mil. Quem ama mil não ama ninguém além do próprio umbigo.

B. - Quando surgiu a necessidade de se expressar através das palavras?
E. - Não houve um momento especial, eu faço isso desde sempre. Quando era criança, desenhava histórias em quadrinhos com meu irmão. Escrever é uma maneira pela qual me expresso. E expressão é arte. Não estou entrando no mérito se é bom ou ruim, acredito que arte vem da necessidade de expressão, da necessidade de transcendência. Escrever é produzir uma fagulha e jogar na imensidão. Eu não escrevo por que gosto ou por que quero ser escritor, escrevo por que preciso. Claro, penso em publicar um dia, aí sim, por vaidade. Não tenho preocupações ou ilusões mercadológicas. Eu assisto filmes que ninguém assiste, ouço músicas que ninguém ouve. É natural que escreva um livro que ninguém vai ler.

B. - Duvido que ninguém leia. Mas e o blog, por que resolveu criá-lo?
E. - Por que você me pediu para fazê-lo (risos).

B. - Sério?
E. - Sim, a culpa é sua. Eu sempre escrevi mas era relapso com as minhas coisas. A idéia do blog foi ótima, caso contrário teria perdido a maioria daqueles textos.

B. - É a culpa mais gostosa de se carregar, tenho que dizer (risos). Você acha que escreve bem?
E. - Eu escrevo melhor que o Paulo Coelho, que está na Acadêmia Brasileira de Letras, e muito melhor que a Zíbia Gaspareto e que a Bruna Surfistinha. Eles são nossa referência de best sellers, logo, escrevo bem. Falando sério, há uma moral católica que nos impede de dizermos que somos bons naquilo que fazemos, por que pode soar arrogante ou presunçoso e tudo mais, como se fosse errado ser bom naquilo que você faz. Uma das coisas que me estimulam a escrever é que não encontro textos como eu gostaria de ler. Mas como eu devo ter dito isso é questão de gosto, para o meu gosto eu escrevo bem. Eu, o Milan Kundera, o Frank Miller, Oscar Wilde, Garcia Marques e mais uns dois ou três... (risos).

B. - (Risos). Inteligência é algo fundamental para você?
E. - Não. Fundamental é ser rico e bonito. Quem não tem isso se vira como pode.

B. - Então é isso que lhe atrai nas pessoas: riqueza e beleza?
E. - Não, não, nunca disse que isso me atrai. Você me perguntou se a inteligência é fundamental para mim, não especifícou em que sentido. Acho que beleza e riqueza são fundamentais para a satisfação dos desejos. Me refiro à beleza no sentido plástico e fútil.

B. - Você é feliz?
E. - Sou esquisito.

B. - Esquisito?
E. -Sim, tem certas coisas, como conquistas materiais, posição social, que são motivo de felicidade para pessoas, mas para mim tanto faz. Ter um carro ou uma casa, tanto faz, eu viveria de vento. De brisa e de arte.

B. - Você consegue definir o amor?
E. - O amor é um móbile, diria Moska. Para o homem, o amor é uma derrota constante, diria eu mesmo.

B. - Por que uma derrota?
E. - Porque amar é um ato feminino. O homem é criado para prover, para caçar, para guerrear. Nunca para amar. O homem sabe seduzir, sabe ser gentil, sabe ser educado, sabe conquistar, mas amar está aquém do seu conhecimento. Quando ele ama, se torna irracional. A mulher tem que ter astúcia, por que ela é educada para amar. É ela quem manipula o relacionamento. É ela quem escolhe, sempre. O homem pode se apresentar, pode bancar o palhaço, pode ser o cara mais rico ou mais lindo do mundo, mas quem sabe o que fazer com o relacionamento é a mulher. Se vai ser uma noite ou se vai ser uma vida, é a mulher quem decide. Elas fazem testes, jogos, mesmo com aqueles que ama. O poder está nas mãos das mulheres, ou no meio de suas coxas, se preferir. Pode ser Deus com o falo pintado de ouro, se ela não quiser, não vai ser. O amor para a mulher é um capricho. Para o homem, rendição. A mulher tem o poder de colocar um homem no céu ou mandá-lo para o inferno. Engraçado pensar que Nietzsche amava Lou Salomé, o homem que revolucionou a história do pensamento ocidental foi incapaz de fazer com que ela o amasse da mesma maneira. Nietzsche que era tão poderoso com sua filosofia do martelo, era tímido e inseguro em relação às mulheres. Mesmo sendo um dos maiores pensadores do século XIX, para Lou Salomé, provavelmente Nietzsche era um bosta. Vai ver por isso ele ficou louco.

B. - Acho que discordo um pouco de você. Talvez um tanto. Mas isso não vem ao caso (risos). Eu percebo uma intensidade à flor da pele nos seus textos. Ela é inerente a você, aos seus desejos ou a ambos?
E. - Penso que se é para sangrar, que seja até a ultima gota. Para escrever sobre a fome, é preciso ter fome.

B. - Não tem medo das conseqüências?
E. - Não me importo em estar sangrando, meu medo é ferir alguém.

B. - Você chega a gostar de estar assim?
E. - Não se trata de gostar ou não gostar. Se trata de ser.

B. - Entendo você, entendo bem. É isso, querido, acho que concluimos. Espero que você tenha gostado.

***

Visitem: http://esollers.blogspot.com/

8 comentários:

Gabriela. disse...

Que bom que voltou a escrever Babi, e com entrevista ainda! Depois eu leio com calma e comento, as coisas do Eduardo - quase sempre - valem a pena serem lidas.

Pensando nisso, vou roubar tua idéia e a da Clarice, e fazer umas entrevistas dessas.

É muito bom de reler e perceber o quanto você mudou, falando de mim quanto entrevistada. Muita coisa mudaria alí.

Beijo bom, e um brinde por sua volta

disse...

Ora, ora... e não é que ele se mostrou? Quem diria. Um dos meus autores preferidos. Belíssima entrevista, como era de se esperar.

L.S. Alves disse...

Gostei da entrevista. É sempre bom encontrá-las no seu blog.
Um abraço moça.

Livia Queiroz disse...

Entrevista graaaaaande! E boooa de ler...

Agora, vim agradecer o comentario lá no blog!
Eu adorei viu?

Olha, eu não sei se ja te convidei ou se você ja conhece o blog Caixa de Pandora, dá uma conferida depois, é um blog q tenho em parcerias com mais dois outroas amigos blogueiros...

Eis o link:
http://caixadepandora-09.blogspot.com/

Livia Queiroz disse...

Opaaa...
Obrigada pelo coments...
volte sempre!

Adorei sua opinião sobre Pandora, ela é relamente dona de um Ego superior à própria exitencia. Mas eu gostot aaanto dela... Sabe aquele amor: Criador X Criatura?
rsrs
Volte smepre pra comentar mais!
Ja tem até postagem nova...
bjokssss

Lúcia disse...

Olá linda B! Outra atualização, ainda mais saborosa hein! Bem, eu já diria que as coisas do Eduardo SEMPRE valem a pena serem lidas...
Parabéns pela entrevista gostosa de se ler e parabéns ao Eduardo pelas palavras sempre bem escritas, pelo pensamento sempre tão maduro e bem expresso e principalmente por sua coragem de se jogar na sua arte e na vida por inteiro, absorvendo cada migalha.
Achei interessante a afirmação de que o amor é uma derrota... mas diria que o amor é uma batalha, "liebe ist krieg" como na letra do Rammstein. A vida é uma batalha do início ao fim do dia, e vantagens e desvantagens se alternam procurando um ponto de equilibrio que parece não chegar nunca. Às vezes dá vontade de apagar tudo da memória, bem como fez Kate Winslet no filme que ele citou... e como tenho pensado tanto nisso estes dias... se pudéssemos arrancar tudo e voltar ao início, fazer diferente, ter outra chance... mas me convenço cada vez mais de que precisamos passar por certas coisas. A razão disso ainda vou descobrir...
Sobre meu blog, muito aos pouquinhos coloco alguma coisa por lá. Estou preparando um novo layout e quero usar os fins de semana pra me dedicar um pouco a ele. Enfim, a paixão pela arte e pela escrita aos poucos vem voltando. Pode aguardar o renascimento daquele meu espaço e a volta das minhas visitas!
O blog com o Julio está em fase de estudo ainda... serão tirinhas. Assim que ele postar a primeira e esboçar a cara do blog o trabalho vai começar a tomar forma, e aí sim avisaremos!

Grande beijo pra ti!

Ana Gotz disse...

quanto tempo que eu nao passo por aqui...


um beijo

Morganna disse...

eu adoros tuas entrevistas, b.
e os entrevistados também. sempre. =)