Devassa

Ato III


Sei que vivo em uma fogueira. Uma dessas que não tem fim. Cada dia que passa me convenço mais e mais, mas hoje, especialmente hoje, me sinto o próprio fogo. O crepitar na madeira se confunde com os meus gemidos, que me acompanham durante todas as vinte e quatro horas. Vou me insinuando como uma labareda, aumentando, aparecendo, provocando. Ando nua pela casa quando acordo, fico assim, rebolando, descendo a mão à virilha, me tocando, entre um gole de suco e uma mordida na torrada, entre o intervalo do programa e o chamado do telefone, entre um olhar de um vizinho e de outro. Adoro me exibir. Lembro da última trepada, na noite anterior. A expressão de surpresa quando me viu chegar e abrir o casaco, mostrando que era só isso que vestia, deixando claro o motivo da minha visita. A boca ávida me engolindo quase por inteiro, a língua insolente me paralisando de prazer. Ali, bem ali, no corredor de entrada, encostados na porta do elevador, como dois animais no cio. Nem mais racionais, nem menos instintivos, éramos exatamente iguais. Pensamentos como esses só atiçam os meus desejos: um único gozo nunca foi suficiente, nem nunca será. Sinto as faíscas saltarem de mim, no ponto mais alto do ardor. Pego o celular e digito um número conhecido. Deixo que ouçam o som do meu corpo, junto a gemidos e falas sem nexo: bato de leve com o indicador no mamilo, nos dois, dou tapas sonoros na bunda e continuo uma masturbação louca, desesperada, com um barulho molhado cada vez mais audível. Quando coloco de novo o aparelho perto do ouvido, escuto uma respiração abafada, cansada, uma voz masculina inconfundível que pergunta: 
- É você?
Quando apenas respondo:
- Quem sabe esta madrugada, eu não bata na sua porta mais uma vez?
E desligo.

***

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Ato I

21 comentários:

Natalia Fênix Gótica disse...

Fiquei curiosa ^^

julio.de.castro disse...

viu? é por isso.

Miguel Barroso disse...

E?

gostei. demais.



Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO

Rafael Velasquez disse...

deliciosamente provocante...

adicionei você no twitter.

beijos.

Camila. disse...

E a quem ela não enlouquece, deus?

Livia Queiroz disse...

Nooooooooooooooooooossa!
Adoreiiiiii....
Mto mto mto bem escrito.
Fez-me lembrar o livro A Casa dos Budas Ditosos de João Ubaldo Ribeiro!

Parabéns viu?
Adoro quando as pessoas escrevem sem medo das palvras que vão usar, sem pudores. A realidade crua me fascina e os detalhes instigam!
Adorei

Posso linkar seu blog??

http://queiroz19.blogspot.com/

o amnésico disse...

Sentir...?

"... fogo que arde sem se ver...
... ferida que que dói não se sente...
... um contentamento descontente...
... dor que desatina sem doer..."



Felizmente existem os poetas!

Thiago Lira disse...

Voltou com força total mesmo.
Já disse uma vez e digo de novo: não dá pra terminar um texto seu sem um suspiro profundo, seja ele de ternura ou tesão.
Parabéns.
ps: vou adorar ouvir sua bibliotéca recheada de coisas boas no last fm =)

Maria Fernanda disse...

Visitas inesperadas: A D O R O!

anibarichello disse...

Isso é ficção, não é?

Ahauhauha.

Me diverti lendo o post e imaginando!

:*

Ataualpa Pereira disse...

Ah! A tênue linha entre a necessidade física e razão. Entre o instinto e a moral...

Delicioso.

Renato disse...

Menina apressada!!!

Mas agora voltei. E voltei pra ficar.

Beijos!!!!

Carlos disse...

Parece que a inspiração voltou a bater na sua porta.

Às vezes ela vai embora, quando a casa está cheia, mas sempre volta para aqueles que guardam o seu lugar à mesa.

Essa cabecinha ainda vai inventar muitas histórias tais como esta.

Beijão!

Brisa disse...

Menina!!!
isso é que é pegar fogo e explodir o quarteirâo inteiro!!
Ula-la!!!

Cais da Língua disse...

"Um único gozo unca foi suficiente, nem nunca será"
hahaha
adorei
bjos

o amnésico disse...

Sentir. Agora tenho uma definição pessoal para dar:

Sentir é e e não é não projetar seus medos em quem não tem medo;

É encarar uma conversa no MSN quando não se tem nada a dizer;

É ser idiota, sabendo que se é idiota e não estar nem aí;

É enterrar tudo que não se quer ver e ver tudo isso voltar como numa enchente;

É como um vórtice;

É ser como você, que sabe lidar com a maré.

É ser como eu, que não sei.

É isso. E não é nada disso.

Lizzie disse...

Sensual e provocante.
Fiquei até curiosa com algumas passagens, confesso. Me pareceu direcionado a tudo e a ninguém.

Beijocas
www.lizziepohlmann.com

Ana D disse...

Isto é uma literatura ousada e provocante rsrs....Perfeito esta tua junção de palavras e pensamentos...

Camila. disse...

Pois brindemos a inspiração - que ela venha, chegue mais perto, mais perto ainda, provoque orgasmos, arrepios, que não se vá embora. Brindes e mais brindes, e aproveitemos o aniversário da moça como desculpa: embebedemo-nos, Bê.

Curiosa disse...

Gostei de tudo aqui ...
bjinho

Mene disse...

nossa...adorei seus textos!.