A morte anunciada

Por que quando o final é previsível, o meio torna-se doloroso demais.

Pela sexta ou sétima vez, talvez muito além disso, ele se deixara iludir. O certo, aliás, seria dizer que ele mesmo procurara aquela ilusão. Engraçado como o ser humano precisa de algo que sustente, não importa se sabe que a queda é inevitável, que a dor é insuportável e que querer o instante é futilidade demais comparado ao que irá ter que aturar. Tudo parecia tão mágico, tão possível, finalmente real. As pessoas na rua sorriam quando os viam passar, impossível não ser contagiado com a alegria descrita nos dois rostos. Aquilo que cultivavam e que ele não ousava nomear, só crescia, pensava. Só pensava, não dizia, não falava. Tinha medo, tanto medo que muitas vezes esquecia de viver. Mas não daquela vez, resolveu que seria oportuno tentar ser diferente. Ficou maravilhado com aquele velho e conhecido mundo novo, o turbilhão de sentimentos que jurara não querer mais para si. Ele tinha avançado o pé que ficara para trás, tinha mergulhado ou era isso que parecia. Até cair uma parede e bloquear o caminho, até dar-se conta de que a realidade era um pouco diferente: ela gostava de outro, ele trepava e morria de tesão pela vizinha, o passado ainda era presente na cabeça dos dois, como um filme nostálgico. Sentiam falta de pessoas que já tinham ido embora há tempos. Aquilo não existia. É, ele não a amava. Não era amor e, por isso, ele já nomeava com tranqüilidade. Nada havia nascido entre os dois, nada que não fosse uma utopia mascarada. Sabia disso desde o começo, desde o instante em que a tomou nos braços e a beijou. Por isso a pontada estranha no peito. Ele fingiu gostar, fingiu querer, fingiu acreditar, fingiu ser o que não era. Sim, era um fingido, mas foi quem mais sofreu.

23 comentários:

Camilinha disse...

erra a figura fingida pensando, um dia, transformar-se em tridimensional, colorida. erra brutalmente porque não se engana essa crosta avessa nossa, que está por debaixo da pele e faz nó com a consciência. mas será que não existe amor dentro de cada gesto fingido? do toque frio dos lábios ainda que não querido? o que é amor, senão esta luta diária pela felicidade fingida?


te adoro, Bárbara!!! e adoro quando você entra de férias e resolve atualizar por aqui...


beijos daqui...

Morganna disse...

doeu nele e doeu em mim.
cair sempre fere, e dói. ainda que não seja vísivel. ainda que busquemos um novo disfarce.
criar ilusões pra amar e pra dar vida ao amor. sei lá.
é tão estranho. e esse texto me deixou com umas coisas esquisitas, eu que já tenho um monte de ilusões que me sustentam.

Um beijo, menina Bárbara!

Ah! Já te falei que eu adoro esses vermelhos daqui? É tão mais intenso! :D

o amnésico disse...

É assim que a vida se vinga de nós, os fingidos: tirando o nosso brinquedo favorito.

Maria Fernanda disse...

Perdi as palavras.

Edna Federico disse...

Muitas vezes fingir acreditar é mais fácil...enganamos ao outro, enganamos a nós mesmos....vale a pena?
Beijo

Sonebald disse...

Eu já disse que você é ótima, certo? ;)

Ataualpa S.Pereira disse...

Sodale...

Final previsível. O que queremos quando decidimos tomar uma garrada de Vodka?

Um grande abraço.

Mary Pimp! disse...

Olá!
Visita aqui, visita ali e acabei por entrar aqui.
Gostei e comentei.
Até breve...

Josephine´s® disse...

não tinha visto esse blog antes. tens talento! bjs

Paul disse...

Ao menos, creio, que não fingiu a pontada estranha no peito; não fingiu senti-la, e deve ter sentido com toda a coragem de quem mergulha nos enganos.

Ótimo texto, Bárbara !! Não esperava que no meio dele tudo se revelaria da forma como acabou, tava até convencido de um final meio feliz. Hauahuahauhauahau.

Marina disse...

Pois é, vivemos num mundo de fingimentos e dissimulações. Raras são as pessoas que se mostram como são, sem se importar com a opinião dos outros.

Raras e criticadas.
E felizes, porque não estão nem aí.

Abraço!

Edson Bezerra disse...

O importante é que viveu. E isso é o que vale mais.

Beijão

diego bueno disse...

Acho q isso tem a ver com possessividade...sei como é não se importar muito com a pessoa mas no final não lidar muito bem com a sensação de perda, qdo a coisa acaba...

parece contraditório...seu texto captou bastante a essência disso, na minha opinião...alias vou ver se inspiro pra voltar as escrever...meu blog anda meio morto ultimamente...




até mais...
abraço...

Leo Lemos... disse...

um beijo louco em vc...

BABI SOLER disse...

Esse tipo de engano não vale a pena e sempre tem o mesmo final.
Boa Semana!

PequenAprendiz disse...

Bom me encontrar nas suas linhas vermelhas.
Excelente como sempre Dona Bárbara.
Boa semana!
Beijos

julio de castro disse...

vários momentos de transição.

beijo, moça.

Flá disse...

doloroso demais deve ser fingir, e de repente perceber que se transformou a vida em mera representação.

Lindo seu texto.

Beijo, moça.

Santhiago Ramirez disse...

Você faz arte sobre a realidade, e elas se misturam duma forma tão gostosa, que a gente oscila entre dois mundos com um friozinho na barriga, esperando o desfecho.
Beijos carinhosos

Helder Herik disse...

finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

abração

Gilgomex™ disse...

bonito, bonito...
triste como sempre... mas muito bonito.

Lord of Erewhon disse...

Aceita um conselho: não confia em homem, só em vampiro... :)

Camila. disse...

E talvez quem mais amou.

Sabe que essa coisa da necessidade de um sustento... É meu pesadelo. Ou era, até pouco. Acontece que não ter quem o sustente é o mais triste. Acabo de descobrir.