Entrevistando Lúcia Ramos

Uma fênix, uma rajada de vento, uma força súbita. Uma mulher e uma menina. Um belo paradoxo, é a Lúcia Ramos (30). Dançarina e escritora, dona do Cena 7, eu poderia defini-la como a bailarina das palavras que encanta com seus versos dançantes e suas coreografias verbais.

B. - Estou curiosa, diga-me... quem é a Lúcia?
Lúcia – Ai... pergunta difícil logo de cara! Como é difícil se definir, se fechar em conceitos e rótulos. Mas acredito que, se fosse me definir, eu diria que sou o oposto de algo acabado, pronto, definido. Me definiria como uma obra em constante evolução, embora tenha meus momentos de parar também, como toda obra aliás, sempre que chega uma tempestade. Sou isso aí: alguém buscando. Buscando leveza, buscando disciplina, buscando equilíbrio, porque acho que é a partir de tudo isso que a gente é capaz de chegar a todo o resto.

B. - E o que você busca, neste exato momento da sua vida?
Lúcia - Nossa, outra pergunta ainda mais difícil! Diria que busco me organizar um pouco, rever minhas prioridades com relação a trabalho, estudo, família, amigos... estou numa fase de balançar a árvore pra fazer as folhas secas caírem. Fase de desconstrução e reconstrução de um monte de coisas. Vivo em eternas elipses, me desconstruindo e reconstruindo como se fosse uma peça de arte contemporânea... numa dessas brincadeiras, vai que me encontro, vai que encontro a fórmula certa!

B. - Percebo, pelas suas palavras, que é uma pessoa mais sentimental. Estou certa? Ou melhor, quanto de você é razão e quanto é sentimento, emoção?
Lúcia – Sim, sou muito sentimento. Mas não vou saber nunca dizer até que ponto sou uma coisa e até que ponto sou outra. Mas desde pequena sempre fui muito mais sentimento do que razão. Até na escola isso se refletia: não tinha, e ainda não tenho, a menor paciência com tudo o que envolve números e equações, mas quando se tratava de escrever, era como se eu estivesse ganhando um presente, não uma lição de casa. Vamos supor que eu seja setenta e cinco por cento de sentimento e vinte e cinco por cento de razão, e que ando justamente procurando um equilíbrio entre os dois. Engraçado que fui acabar na Arquitetura, que envolve muito cálculo além da criatividade. Quem sabe já não era um sinal de busca desse tal equilíbrio o fato de eu ter escolhido esse curso?

B. - É incômodo o fato de não haver esse equilíbrio?
Lúcia - Incomoda bastante. Porque, pode até não parecer, mas não sou o tipo disciplinado de pessoa. E acho que o caminho pro crescimento e pra verdadeira liberdade passa necessariamente pela disciplina. É muito mais difícil alcançar algo que você deseja se você simplesmente se joga ao sabor do vento e da vida, sem qualquer preparo. Não que eu de vez em quando não faça isso, claro que tenho meus momentos de mandar tudo à merda e arriscar, me deixar levar. Mas de alguma maneira sinto falta desse equilíbrio, sinto que não consigo crescer como pessoa sem a tal, chata, disciplina. Meu pai, por exemplo, foi criado sob uma disciplina forte. Filho de professora, em uma época em que professoras tinham respeito e nome, e de um ex-delegado de polícia. Imagina só a rigidez da criação daquela época! Ele cresceu sob princípios muito bem estabelecidos, preza a ordem, a limpeza, a pontualidade. E embora seja ele a pessoa com quem mais me identifico no mundo, ele é também aquele com quem mais me choco em matéria de relacionamentos. Somos tão parecidos quanto diferentes e me sinto também muito cobrada. Sou a primeira de cinco filhos e sempre senti que meus pais queriam que eu fosse o exemplo ideal de pessoa ou, pelo menos, tão disciplinada quanto eles mesmos foram.

B. - Mas você não acha que a disciplina em excesso ou superestimada pode inibir a pessoa, de certa forma? Especialmente alguém em formação?
Lúcia - Pode. E, de certa forma, a disciplina que meus pais procuraram impor desde que eu era bem pequena pode ter me limitado um pouco, mesmo eu sendo o tipo que, definitivamente, não gosta de se submeter a qualquer tipo de disciplina imposta de fora. Mas tive meu momento de liberdade, de me atirar em muitas oportunidades que surgiam e acabei indo pro oposto durante um certo tempo. Hoje, sinto que preciso de um equilíbrio.

B. - Tenho a forte impressão de que quando uma criança é submetida a uma disciplina muito rígida, ela cresce com uma visão limitada de mundo e de vida. Não que seja algo descartável, é preciso baixar a cabeça pra se encaixar na sociedade. Mas baixando ela demais, podem pisar em cima ou você passar a só enxergar o chão.
Lúcia - Hoje mesmo estava conversando sobre isso com meu pai, e ele me disse que por muito tempo viveu acreditando que todo o mundo tinha os mesmos princípios dele, e que não foi nada fácil ou indolor ir descobrindo que isso não era verdade. Disciplina demais pode, sim, fazer a gente crescer numa espécie de ilha ideológica... e é aí que está o perigo de enxergar só o chão. Se bem que, apesar de toda a disciplina que tentaram me impor, e que repudiei com certa veemência, fui criada também num meio que me ampliou muito os horizontes e me preparou pra muita coisa. Meus pais sempre foram, os dois, muito cultos, e ao menos cultura e educação todos os filhos receberam mais do que o suficiente. Mas acredito que a partir de um certo ponto a coisa é com você e pronto, não importa com que carga emocional ou cultural ou econômica você veio. Essa é outra questão que vive me assombrando: até que ponto sou fruto das coordenadas e até que ponto sou eu mesma, com idéias e visão de mundo minhas? Acho que nunca vou saber responder. Em outras palavras: a educação, num sentido geral, é como uma bomba que soltam nas mãos da gente: a partir de determinado ponto você tem que lidar com ela, aprender a desarmá-la, usar a seu favor ou, na pior das hipóteses, explodir junto com ela!

B. - Sabe, acho que ninguém nasce inteiro. Somos como um copo vazio que, aos poucos, vai enchendo. E vai ficando completo com as coisas que nos ensinam, com aquilo que vemos e daí, aprendemos a absorver do nosso jeito. Há os que recebem a tal disciplina exagerada e se rebelam, há os que a recebem e se conformam. Há os que são criados com muita liberdade e se tornam pessoas reprimidas, há os que a tem e são mais livres que os pais. Depende muito do contexto, do contemporâneo e da essência da pessoa. A educação, assim, seria, além de complexa, individualizada, cada um precisa de um grupo de coisas ao longo da vida, talvez caiba a quem cria conhecer suficiente o filho e identificar o que falta ali. Mas, já que me alonguei demais, e precisamos falar sobre coisas mais amenas por que não só de seriedade se vive... qual o seu maior desejo?
Lúcia – Desejos tenho muitos, muitos mesmo. Mas o maior? Acho que é construir conexões verdadeiras com as pessoas. Não sei se são os tempos, se sou eu, se é a superficialidade que vejo em tanta coisa e em tanta gente, mas sinto falta dessa conexão verdadeira com o outro. Hoje, tudo me parece muito descartável, e quero momentos plenos de sentido, relacionamentos plenos de sentido e que me façam crescer.

B. - Inteligência, dinheiro, beleza, fama... dê uma ordem de importância a essas palavras e acrescenta as que parecem fazer falta pra você.
Lúcia - Acho que inteligência, ou a cultura / educação vêm sem dúvida em primeiro. Então o dinheiro, porque sem ele hoje em dia não se faz nada. Até porque o dinheiro pode facilmente trazer os dois últimos: beleza e fama. Não importando o porquê dessa fama. Amarrando todas as opções: se você trabalhar sua inteligência, você consegue o dinheiro e, então, a beleza e a fama. Já que grande parte da beleza que se vê por aí é simplesmente construída depois de comprada em um consultório de cirurgião plástico. Eu diria que fama não está entre as coisas que eu busco. Mas a beleza e o dinheiro, ah, como ajudariam!

B. - E o amor, ou os relacionamentos amorosos, onde encaixaria?
Lúcia - O amor... aí levo você de volta às conexões verdadeiras que busco na minha vida. Amor fast-food já não busco, já não me satisfaz, já me deixa insuportavelmente vazia. Mas o tipo de amor que envolve companheirismo, apoio, amizade sincera, crescimento conjunto, este, pra mim, vem em primeiro lugar, antes mesmo da cultura. Porque se você tiver alguém que esteja lá com você, dando força, você acaba por acreditar em você mesmo e procurar se desenvolver como pessoa. Daí você vai ter a cultura / inteligência, e então o dinheiro, e então, se lhe fizer falta, a fama. Me lembro de uma frase de um escritor francês, Jean Vanier, que me fez parar e reavaliar muita coisa: "Onde você coloca sua atenção, ali começa a criação de alguma coisa", ou algo parecido com isso!

B. - Conseguiria definir o amor?
Lúcia – Não, realmente não! Amor é coisa que não tem definição, é pra ser vivida, sentida, dividida e somada. Mas definida? Acho que não!

B. - Falando sobre a escrita... como e quando você começou a gostar de escrever e a perceber que sabe fazer isso?
Lúcia – Sei (risos)?

B. - Sabe...
Lúcia – Desde bem pequena. Com cinco anos aprendi com minha mãe a ler e escrever, e desde então comecei a brincar com as palavras. Eram, na verdade meus brinquedos favoritos: as palavras e as cores que eu colocava em desenhos e pinturas. Lembro que minha mãe, que era professora de inglês, tinha uma máquina de escrever daquelas imensas, jurássicas, e eu adorava brincar com aquilo. Então, com sete anos, meus pais me inscreveram num concurso de literatura. Foi quando eu aprendi uma palavrinha muito curiosa: pseudônimo. Não era nem gente ainda e já tinha pseudônimo! Acabei ganhando uma medalha por ser a única criança a participar no concurso, no meio de tanta gente grande e experiente. Guardo com o maior dos carinhos essa medalha. A partir daí comecei a escrever muita coisa, me arrisquei com poemas, narrativas, passei da máquina de escrever para o papel, adoro escrever à mão, lia todos os textos dos livros de português bem antes das aulas começarem. Pra, então, achar as aulas chatíssimas e o fato de rabiscar nos cadernos e mergulhar em pensamentos algo bem mais interessante! Até que descobri a dança, me apaixonei perdidamente e passei a me dedicar mais a ela.

B. - E o blog, como surgiu?
Lúcia - O blog surgiu bem mais tarde. Na verdade, eu só descobri sobre a existência deles há quatro anos ou um pouco mais. E foi por acaso: eu procurava páginas relacionadas à Arquitetura, e encontrei um blog que era feito por alguns alunos da minha faculdade. A partir dele fui conhecendo outros relacionados ao mesmo tema, até que deu vontade de fazer um pra mim, mas que falasse de coisas minhas, que tivessem textos e pensamentos e montagens minhas, enfim, que fosse a minha cara, mas que também não deixasse a arquitetura e a dança de fora. Era mais um meio que eu descobria de dialogar com estes dois temas fora do convencional. E gostei da experiência. Fiz contatos que acabaram virando amigos além do virtual, conheci muita gente com idéias semelhantes às minhas, fiz do blog meu segundo endereço, minha segunda casa.

B. - Dançar ou escrever, qual você escolheria?
Lúcia - Não me faz essa pergunta! É muito difícil! Bem, como dizia minha mãe, eu tenho essa mania insuportável de querer e tentar tudo ao mesmo tempo... na dança descarrego minha energia, crio. A dança me permite o contato com o outro, me permite conhecer outras pessoas de maneira direta, é uma criação conjunta, sempre. É você, o coreógrafo, os bailarinos, os espectadores, a adrenalina, a delícia de estar sob as luzes quentes e coloridas de um palco expressando tudo o que você tem de bonito ou de feio, se formos falar da dança contemporânea. Escrever é mais uma coisa de você com você mesmo e, às vezes, até pra você mesmo. Não existe aquela preocupação com o espectador, a não ser que você decida que você quer uma "platéia". Os dois me acalmam, me equilibram, da mesma forma que a música me equilibra, cantar me equilibra absurdamente. Vou dizer pra você que não saberia viver sem nenhuma dessas coisas! Elas me completam. Aliás, é por aí que a arte tem buscado seu caminho: na integração, no intercâmbio, no hibridismo, no diálogo entre uma arte e outra, entre todas as artes e aqueles para quem elas são feitas. Então, por favor, quase me ajoelhando, não me peça pra escolher uma só! (Risos)

B. - Está bem, não peço. Pode ficar com todas elas. Eu também fico (risos). Acho que chegamos ao fim, linda. O que mais gostaria de dizer?
Lúcia – Ah, mas já?! Acho que teríamos assunto pra conversar por, pelo menos, mais dois dias!

B. - Com certeza... a gente continua em off e ainda deixa as pessoas curiosas, que tal? (Risos)
Lúcia - Humm... adorei a idéia! Com direito a morango e champagne?

B. - Morango, champagne, música, dança e o que mais você quiser (risos).
Lúcia - A madrugada então promete!

***

Visitem: http://cena7.blogspot.com/

11 comentários:

Vitor Tamar disse...

Nossa... que moça interessante!! Virei fã! Gostei muito da entrevista e amei algumas partes como a "definição" do amor!
Parabéns pela entrevista, espero por mais algumas desse nível!

Monsieur Coçard disse...

Deveras interessante, um bom bate papo. Mas acho que uma pessoa ser travada ou não independe de criação muito rígida...

Lúcia disse...

Oi minha linda,
adorei nossa conversa, só faltou um cafezinho pra que eu me sentisse verdadeiramente em cas... ahh, mas teve champagne com morangos!...
Olha que você tem talento hein, aproveite bem o curso!

E olha só que divertido: tive internet por menos de uma semana e agora voltei a ter problemas com ela... Com essa sorte, quem sabe dentro de dois ou três meses vou poder voltar a postar com mais freqüência... =/

Deseje-me sorte...

Beijos

L.S. Alves disse...

Bárbara obrigado pela entrevista com uma das minhas blogueiras favoritas. Foi uma delícia acompanhar sua conversa com esse amor de pessoa que é a Lúcia.
Beijos e obrigado de novo.

Juliana Caribé disse...

Linda a entrevista! EU sou fã da Lúcia...

Morganna disse...

êbaaaaaaaaaaaa!
eu sou fã da lu.adorei, menina. a lucia é uma lindeza. :D

Fala, Garoto! disse...

Parabéns pela entrevista...ao mesmo tempo técnica e informal, um bate-papo descontraído e interessante. Gostei de conhecer Lúcia Ramos. Bj

Gabriela. disse...

Ai que essa Lúcia é o charme do mundo.

Adorei!!!!!!!!!!!!!!!

BABI SOLER disse...

Tem um presentinho pra vc lá no meu.
Um beijo.

Pedro Gabriel disse...

lindo o seu comentário no meu blog, de verdade. Brigado por ter passado, por ter lido.
;-)

vou ler essa entrevista agora, agora.

grande beijo
;-)

Fê Probst disse...

A Lúcia realmente é uma mulher interessante. Me identifiquei com ela na parte razão/emoção/sentimento.
Mais uma entrevista envolvente!

PS: Desculpas pelo sumiço. A vida cansativa recomeçou e eu demorei a me acostumar com ela. Agora que a criatividade está de volta e a inspiração idem, aparecerei mais vezes! Beijos ;*