Macabéa

Era o quinto dia consecutivo que ela acordava com um susto, olhava o relógio e via a mesma hora: seis e cinqüenta e oito. Sentava na cama, com as pernas cruzadas e uma sensação ruim de déjà vu. O coração acelerado, a cabeça doendo, os olhos vermelhos e inchados. Lembranças de uma noite insone e cruel. Já tinha virado rotina. Péssima, por sinal. E aí vinha aquele aperto horrível bem na boca do estômago. Tão forte que a deixava sem ar, a respiração ficava difícil e ela deitava de novo. Virava de um lado para o outro, tentando achar uma posição que diminuísse a dor e nada. Nada que melhorasse. Nada. Então, ela levantava, com dificuldade, saía do quarto, saía da casa, ia até a porta no final do corredor, sentava no tapete e encostava a cabeça, tentando sentir o cheiro daquele perfume que conhecia tão bem. O pouco que havia ficado quando ele saiu para trabalhar. Sabia que não tinha ninguém ali e ficava, como uma desesperada, buscando alguma coisa que a fizesse sentir bem.
"É angústia", disseram. Então era isso que chamavam de angústia, essa dor horrorosa? Mas parecia ser algo físico, talvez estivesse doente. "Não ou não se sentiria melhor entrando em contato com a causa de tudo". Não tinha jeito, ela ia ter que aprender a lidar com aquilo. Procurava pelas lembranças boas, pelos momentos belos que viveu e chorava feito criança abandonada.
- O que está fazendo aí? - Ele apareceu, do nada, e a viu numa cena deplorável. Merda!
- Não me sinto bem.
- Entra aqui, vou te pegar um copo com água e açúcar. - Ele a ajudou a levantar, abriu a porta e a fez sentar numa poltrona grande. Foi até a cozinha e quando voltou, entregou a bebida, esperou que terminasse e parasse de chorar.
- Não agüento mais - Ela, então, falou - essa distância, essa indiferença. Eu preciso de você perto. Eu preciso ter você pra mim. Como sempre foi. Sempre.
Ele virou para o lado e ficou assim por uns minutos. Quando a olhou, parecia ter uma arma apontada em sua direção. Puxou o gatilho e:
- Desculpa, mas não dá. Não posso mais.
Primeiro tiro.
- Não acredito mais em nós dois.
Segundo.
- Aceite isso, por favor.
Terceiro, último e fatal. Pronto, estava morta. Se esforçou para segurar algumas poucas lágrimas que teimavam em querer cair.
- Desculpe, não devia ter aparecido aqui. Mas é difícil, morando tão perto. - Levantou e saiu caminhando devagar.
- Espere, não precisamos ser inimigos ou desconhecidos. Podemos conversar, você pode vir aqui quando quiser e...
Ela fingiu não ter escutado. Bateu a porta e voltou pra cama. Ficou sentada lá por horas. Não sabia o que fazer, não sabia como agir. Estava vazia, não tinha mais nada por dentro. Era oca.

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A Jô, do Fragmentos de Jô, me presenteou com o prêmio "Blog Cabeça" (ri muito com o nome e o selo, obrigada, linda). E agora tenho que indicar mais 5 blogs. São eles:
Do Amor, Laico Impropério, do Sollers;
A Verdade Nua, do Paulo;
Ma Passion Rouge, da Gabriela;
Apenas um, do Edson;
Ácido Poético, do Bruno.

A Lucia do Cena7 me presenteou com o prêmio "Uma mulher que faz pensar..." (o título até faz me sentir orgulhosa, viu? Merci, ma chérie). E agora eu indico mais cinco blogs:
Ma Passion Rouge, da Gabriela;
Bonequinha de Seda, da Fê;
Reflexões de uns dias a mais, da Sandy;
Lizzie, do Lizzie Pohlmann;
Nana Flash, da Natasha

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http://onabru-urbano.blogspot.com/
http://sobremortes.blogspot.com/

9 comentários:

Lúcia disse...

Credo, quem sentiu déjà vu agora fui eu ao ler as primeiras linhas do seu texto: passei por uma fase em que acordava sempre, sempre assim, todos os dias, assustada, e olhava o relógio, mas ele marcava sempre alguma hora em torno das cinco da manhã... estranho isso.

E que texto angustiante... "engraçado" que, por mais tempo que já se tenha passado, continuo a me sentir meio assim, oca, vazia... até quando?
Só sei de uma coisa: quero caminhar. E para a frente.

Ah, sim, a ameaça não deixou de ser perigosa... principalmente depois que eu li o comentário da Gabriela sobre o sonho dela... meninas, vocês precisam de análise...! Hahah!

Sobre a cicatriz, nem vou discutir... é fato. E um fato impossível de esquecer, porque ele sempre faz questão de doer pra nos lembrar de que está ali.
Enfim, quando entramos intensos, saímos outra pessoa. Uma mistura mais rica, eu diria, porque levamos algo da essência do outro.
E é isso que insiste em doer. Embora seja a coisa mais bonita. Embora seja a coisa mais terrível.

Alguém escreveu algo assim uma vez, acho que foi a poetisa Adélia Prado:

"O amor é a coisa mais bonita.
O amor é a coisa mais triste.
O amor é a coisa que eu mais quero."

Festeje, sim!, abra champagne francês e ouça Chico! A gente sempre merece se tratar bem!

Beijo enorme, fico aqui aguardando notícias do novo blog!

Au revoir mon ange noir!


P.S.: Não era pra rimar não viu! Ou talvez eu devesse dizer 'mon ange rouge'? Muito mais a sua cara...!

Lúcia disse...

Sim, sim, foi Adélia Prado quem escreveu:

"Amor é a coisa mais alegre,
amor é a coisa mais triste,
amor é a coisa que eu mais quero."

Amo essa mulher!

Beijo

Ane Talita disse...

Existem pessoas que têm esse poder de nos deixar oca...O pior é que as vezes demora pra cicatrizar...=/
Muito bom! =)

beijo!

Ah...já resolvi sim meu probleminha com o haloscan! ;)

Ácido Poético disse...

Obrigado pela indicação, minha querida.
Se bem que minha acidez nem sempre é tão "cabeça", né?

Beijo beijo
Brunø

Critical Watcher disse...

Isso me fez lembrar de um texto da Gabriela, do Ma Passion Rouge.

"Bang-bang-bang. Xeque-mate. Aur revouir. Hasta la vista, baby."

Muito bom a forma com que você retrata a morte física e espiritual de uma pessoa. Sabe o que me chamou a atenção? O definhar dela é silencioso, mórbido e irreparável.

Beijo!

Pushoverboy disse...

Amar e não ser correspondido... realmente dói muito, mas pra todo mal há um remédio. Esquecer é meio impossível, mas com o tempo pode-se superar e encontrar um novo amor.

aa obrigo por linkar... e bem... todos temos amores platônicos não?
bjos moça.

Fê Probst disse...

Isso que dá quando jogamos a nossa felicidade nas mãos de terceiros. São poucos os que cuidam dela, como se ela fosse um passarinho de asas quebradas. A maioria segura, amassa ou rasga e joga na primeira lata de lixo que vê pela frente...


Obrigada pelo mimo! Adorei!
Beijos

♀.mary ienke.♀ disse...

Segunda vez que encontro a Macabéa no mundo dos blogs (rs).

Beijos moça!

Caroline disse...

Sensações de Deja Vu me perseguem desde há muito. As vezes é engraçado como me encontro nos teus textos... essas sensações, sentimentos meio inexplicaveis, esquisitos.


bjs querida !