Entrevistando G.

A segunda participação é da lindíssima dona do Irônica, eu? e também minha parceira de psicopatias e perversões no Sobre Mortes, Gabriela Cruz ou G. (21), como preferirem. A baiana é dona de um lirismo cativante e tem uma sensibilidade com as palavras muito difícil de se encontrar por aí. Ela brinca de reinventar e descobrir sentidos que passam despercebidos a olhos desatentos. É forte, indomável, exigente e doce... tão doce que derrete na boca.


B. - Então, minha flor, diga-me... quem é Gabriela?
G. - Ai... já começa assim é?

B. - É (risos).
G. - Gabriela é uma moça de gênio intragável, temperamento difícil, alguns raros me tem doce. Gabriela não cabe no estreito, vivo nos extremos. Acho que isso...

B. - Engraçado que o que acabou de falar bate com o que escrevi para lhe introduzir.
G. - Vai ver você é meu alter-ego.

B. - Não duvido. Mesmo. E o que há em você que não há em mais ninguém?
G. - Eu sou um pouquinho de tanta gente. Difícil ter algo só meu. Mas diria que a minha capacidade de ser rude com um sorriso nos lábios, poucos têm.

B. - Sabe o porquê disso?
G. - Vai ver é meu sangue de índio e meu espírito de cigana. Vai ver isso ajuda a me esconder, vai ver porque sou escrota mesmo.

B. - Aposto na capacidade explosiva da mistura do sangue e do espírito.
G. - E porque não também na junção com o instinto? Tenho instinto de leoa, eu sempre preferi machucar a ser machucada, sempre ataquei pra me defender.

B. - Terá isso relação com entregar-se ou não?
G. - Eu SEMPRE me entrego. Não consigo idealizar um meio termo. Sou visceral demais. Me deixei ser machucada para testar o meu limite.

B. - Costumo dizer que não sei "ser pela metade" e sei que você também não. Acha que isso é um problema?
G. - Não. Num mundo de tanta superficialidade, tanto meio-termo, sermos "nós", nos torna exceção, claro que também temos que assumir os riscos. E os riscos são as idealizações, é bom não confundir idealização com ilusão. Minhas ambições são grandes, porém, sonho com os pés no chão.

B. - Conta um fato marcante da sua vida.
G. - Quando eu perdi o amor do meu pai. Me machuca ver que ele é mais íntimo da minha cadela, que de mim. Que nada que eu faça, mude isso, que nada que eu fale, compense. Sei lá, me dói ver alguém que se ama com outras pessoas como ele já foi um dia com você. Eu só queria não sentir tanta falta. E vários outros pequenos momentos que desde que conheci meu namorado, há 5 anos, ele me dá.

B. - Também sofro com a indiferença e as críticas sem-fim que meu pai, agora, me dá. É difícil acostumar-se a uma coisa que é o completo oposto daquilo que tínhamos. Como você lida com as mudanças?
G. - Eu ainda não lido bem com isso. Não posso ver pai com filha em shopping que choro, ou seguro o máximo que posso. Se toca as músicas de Chico e Tom que ele cantava e dançava comigo, choro também. rs Acho que estou me mostrando muito manteiga derretida... Edite isso.

B. - Você já ouviu "O Filho Que Eu Quero Ter"?
G. - Já. Linda. Mas uma que me marca é uma que começa assim: "menininha do meu coração, eu só quero você, a três palmos do chão...". Ele sempre cantava pra mim de manhã.

B. - Essa eu não conheço. Mas a que falei me faz chorar horrores toda vez que ouço. Já que estamos falando de música, qual seria a trilha sonora da sua vida?
G. - Chico Buarque, claro. Sempre.

B. - E o que não tocaria de jeito nenhum?
G. - 90% do repertório nacional.

B. - Quem foi Gabriela no passado?
G. - Um ontem que não existe mais.

B. - Como você definiria o amor?
G. - Preciso parafrasear o Moska: "O amor é um móbile".

B. - Um móbile?
G. - Um móbile. Várias formas, várias cores, vários movimentos.

B. - E o que inspira amor?
G. - Companheirismo. O meu amor é alimentado disto. Nietzsche me ensinou a acreditar nisto.

B. - Nietzsche. Existencialismo. No que você acredita? Saindo do sentimental, para algo mais amplo, claro.
G. - Acredito em mim, e no Nietzsche. Por vezes, nas filosofias buarqueanas.

B. - Você é uma pessoa livre?
G. - Completamente.

B. - E o que é liberdade pra você?
G. - Sou apaixonada pela Mafalda e li numa tirinha que a Liberdade era uma menininha pequenininha e que viviam tirando conclusões cretinas a respeito dela. Por tanto, prefiro não defini-la, para não aprisiona-la.

B. - O que é essencial na sua vida?
G. - Ter quem amo sempre perto. Poder ficar dando cheiro no pescoço, ficar de mãos dadas até a mão suar, abraçar até sufocar, brincar com aquele cílio torto, eu preciso do toque, de cheiro, de presença.

B. - Pudor e recato fazem parte da sua vida?
G. - Recato, sim; pudor, nem um pouco. Penso em coisas que coraria até a Hilda Hilst e encabularia Anaïs.

B. - Ainda bem que não sou a única (risos). Vamos falar de artes. Qual mais atrai a sua atenção?
G. - Pintura.

B. - De alguém em especial?
G. - Frida Kahlo, Dalí e Miró.

B. - Muito bom gosto. Você pinta?
G. - Pintava, com o meu pai (risos). Hoje só faço mosaico, sozinha.

B. - E a escrita? Quando começou a gostar?
G. - Desde que comecei a escrever. Tinha um diário que inventava personagens, poesias, desenhos. Escrever era a minha catarse.

B. - O gosto pela escrita veio antes da leitura?
G. - Veio junto, comecei a escrever quando aprendi a ler, daí lia Monteiro Lobato e começava a criar meus próprios personagens...

B. - Eu confesso que não gostava de ler e o Lobato foi um grande Carrasco. Descobri que escrever era bom depois de alguns anos. E os seus autores preferidos, quais são?
G. - Eu sou uma vagabunda literária, hoje, eu amo o Caio Fernando Abreu.

B. - Tem algum livro que costuma indicar sempre?
G. - Para alguns raros, indico Nietzsche, mas geralmente indico A Insustentável Leveza do Ser, pois não tem como não gostar.

B. - Por que você criou um blog?
G. - Criei sem muitas pretensões, e quando o meu outro cresceu demais, eu o matei. Mas fiquei com remorso, criei esse novo, que espero que não seja muito visto, por incrivel que pareça, não gosto muito de comentários e confetes.

B. - E o nosso projeto, o Sobre Mortes, o que espera dele?
G. - Espero que eu fique rica com ele (brincadeira). Espero que ele possa crescer, e que depois vire um fruto saudável da união desses três megalomaníacos, tarados, histéricos e perversos.

B. - Saudável? Será possível? (risos)
G. - Não custa tentar. A vida é uma eterna tentativa, não acha?

B. - Tem razão. Você diria que há beleza na loucura?
G. - Diria que não há beleza sem um bom pedaço de loucura.

B. - Quem será Gabriela no futuro?
G. - Uma psicanalista rica e equilibrada.

B. - Inteligência é fundamental?
G. - Inteligência é visceral, dá tesão, e alimenta.

B. - Pronto, pode respirar aliviada. Acabou o sofrimento (risos). Quer dizer algo mais?
G. - Dizer que eu adorei. Que eu gosto muito de você. E que quando eu te encontrar vou te dar um tapa na bunda e um beijo para arrancar a tua língua fora. Pode dizer isso? (risos)

B. - Você pode tudo (risos).


***

Visitem: http://umrealdeironia.blogspot.com/ e
http://sobremortes.blogspot.com/

10 comentários:

Carlos Barbosa disse...

Eu digo sim pra Gabriela, pra G. ou qualquer outra mulher que nela se esconda ou se revele. Digo Sim e Sims. Abr. Carlos

disse...

Adorei o bjo de arrancar a língua fora. rs. Mto boa a entrevista: bom gosto, clareza e concisão, uma bela ménage. rs.

G. disse...

Minha menina, goZtei e MUITO de ter concedido a esta entrevista. Você é ótima. Em todos os pontos.

Como gosto de você, BÁRBARA!

E o beijo, está me devendo e eu quem vou buscar.

BABI SOLER disse...

Muito legal.
O trecho do pai é tocante.

Beijo

Edson Marques disse...

Belíssima entrevista!

___________

"Faz muito tempo que eu não perdi a minha inocência."
Pois trate de perdê-la logo. Esse tipo de coisa só combina com crianças pequenas.
______________________
Você me disse isso...



Mas, não: não quero perder a Inocência - que é, segundo Oscar Wilde, "o maior afodisíaco"!


Abraços, flores, estrelas..

Fê Probst disse...

Gabriela é uma garota interessante... Adorei a entrevista dela.

Richard disse...

Simpatiquíssima,
gostei do blog dela, supimpa como a dona. Curti essas entrevistas que você faz, as pessoas tem umas visões intressantes.

Lucia disse...

Coucou mon ange,
adorei conhecer um pouquinho de Gabriela. As palavras dela (aqui incluídas as do blog, que achei muito bom) inspiram força e delicadeza, um abrir-se para a vida e ir se lapidando com o que se vai encontrando de negativo. Quero parecer com Gabriela quando crescer...! rs
Parabéns às duas!
Beijos

Vitor Tamar disse...

Ahhh... MUITO boa! Que menina interessante... Adoraria sentar em um boteco e conversar com elaa sobre muitas coisas... Muito melhor que a minha entrevista. Cheia de historinhas interessantes... Ela daria mais umas 2hrs de bom papo... Parabéns!

L.S. Alves disse...

Estou tomando gosto pelas suas entrevistas. Espero que continue com elas.
Um abraço.