Imperfeição

Em que momento tudo mudou? Qual atitude tomou que a fez perceber o quão cheia de erros era? Não sabia. Apontava os defeitos dos outros e os passava na cara com o maior prazer que um ser humano é capaz de sentir, mas não se enxergava e quando alguém resolvia mostrar como ela realmente era, tinha surtos homéricos. O último havia sido o pior de todos, falara muitas coisas sem pensar. Machucara aquele que mais amava na vida. Sentiu as lágrimas cairem novamente e deixou-se lavar pelo choro, andando de um lado para o outro da sala. Segurava a vodka mais barata que tinha em casa, quase vazia. Cada gole que dava era um problema a menos. Podia senti-lo indo embora junto com a bebida. O desejo de esvaziar a garrafa, então, era cada vez maior, aumentando na mesma proporção de sua tontura.
Não iria ligar, não pediria desculpa, não se rebaixaria, não a esse nível patético e pobre desses românticos débeis. Pensava, olhando o telefone em suas mãos. Foi discando inconscientemente o número dele enquanto maldizia toda essa pieguice dos casais. Esperou, mas ninguém atendeu. A ligação parou. Ouviu a voz na secretária eletrônica e jogou o maldito aparelho na parede. Xingou tudo e todos, até ela mesma. Descontrolou-se. Caiu no chão e olhou o cachorro assustado, encolhido embaixo da mesa, assistindo ao seu show. Teve pena dele, mas passou logo que lembrou o porquê havia caido. Gritou o mais alto que pôde, derrubando as coisas que podia alcançar de onde estava.
Deitou-se no chão frio, ouvindo o coração palpitar forte. Não tinha mais o que beber, nem o que sentir. Tocou o lugar entre os seios, não queria mais aquilo ali, merda de órgão amaldiçoado. Levantou-se de vez e foi na cozinha atrás de uma faca. Pegou a mais afiada que encontrou e foi cortando-se, lentamente, curtindo cada segundo de dor, partiu-se literalmente. Conseguiu, em meio a muito sangue, achar a fonte de seus maiores problemas. Arrancou-o dali e o observou bater descompassado em suas mãos. Belo filho da puta. Tão belo que a fez comê-lo, pedaço por pedaço.
Satisfez seus mais bizarros sonhos. Sorriu ensadecida, deitando-se mais uma vez. Estava calma, agora mais nada iria tirá-la do sério. Fechou os olhos, entregando-se ao cansaço e ao torpor da embriaguez.

21 comentários:

Helder Hortta disse...

B, minha cara. quão forte é essa sua estória. canibalismo.

És uma grande selvagem.

tens uma selva enterrada.

beijo-te

laura disse...

meu Deus.. isso é de dar medo...
embora tenha horas que eu queira mesmo não ter coração, arranca-lo com minhas mãos, não penso em comê-lo

hauhauhauh
(ops.. acho que não era para rir... =/)

maaaas, que tem horas que da vontade de não senti-lo bater, da mesmo..
principalmente quando percebo o tamanho dos meus erros...

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tomara que sim, acho que é só uma passagem difícil da minha vida...
vou me encontrar...

Ana D disse...

Fortíssimo e ao mesmo tempo de uma sensibilidade e imagem bizarra...Gostei ! Gosto por demais de escritos dramáticos, fortes, soturnos, inesperados..Arrancar o próprio coração e come-lo é uma metáfora forte só que não aliviaria a pieguice do drama por amor..rs.

Valentim disse...

Comer um coração? Nossa isso é bem forte e radical. Parece aquela cena do Indiana Jones, quando o cara arranca o coração da pessoa fora. Beijos.

Thiago Lira disse...

B.

Indiquei seu poema "Atemporal" para o Prêmio Caneta de Ouro - Poesia "In Blog"
Se aceitar participar do concurso vc deve indicar 5 poemas tb
então dá uma olhadinha nas regras http://poemasdeandreluis.blogspot.com/2007/08/prmio-caneta-de-ouro.html#links
Abraço.

Anônimo disse...

Seus textos estão cada vez melhor.
bjos

Rachs disse...

foi meu o comentário anterior!
bjos

Edna Federico disse...

Nossa...eu prefiro uma pizza, gigante! riso
Amar um outro mais do que a si mesma...hum, muito perigoso e insano.

Mariliza Silva disse...

Que metáfora brilhante!!!
Para quem tem uma vida intensa não se pode esperar menos que isso!

Beijos meu anjo e adoro te ver chocando as pessoas.rsrsrs

Mariliza

Mila disse...

vez em quando eu passo por aqui e sempre tem essas histórias pra espantar a gente mesmo.
e se cortar aos poucos é a mania dos teus personagens, ao que parece.

selvagem, mas muito bom o texto!

Nana Flash disse...

Adoro quando você foge da figuração e via pras vias de fato :D
Saudade de ler suas coisas assim, desesperadas e nuas ;)
Beijinho

Daniele disse...

Querida B, primeiro quero lhe agradecer muito por ter permitido o link do seu espaço que tenho um apreço enorme.

No que tange ao seu texto é magistral, denso. Em que a metáfora é tangível a muitas ocasiões em que o que mais queremos é a antropofagia...rs
Aliás seu texto marca exatamente os nossos instintos primários.

Beijos bela,

Barão Van Blogh disse...

Foi um prazer passar por esta página encantada .

"...Enfeitiçantes estas cores irão fazer
Uma imagem encantada na tela aparecer..."


Um delicado beijo .

o amnésico disse...

Que maravilha! Você se supera a cada obra, chega mesmo a soar irônico este título.

Sabe, às vezes, eu tenho vontade de fazer o que ela fez, mas com o meu cérebro; melhor esconder as facas da casa, hehehe!

Um beijo! Felizes jornadas alma adentro.

LEONARDO LEMOS - (quase) primo! disse...

Lindo........................................................................................................................................................................................... senti cada palpitação descrita pelo narrador. MUITO BOM SACIAR NOSSO SOFRIMENTO... PENA QUE SOMOS FRACOS, COVARDES, inúteis.


SACIAR...

Thiago Kuerques disse...

Imperfeição perfeita.
Uma mulher rica, cheia de ...devaneios, porque não?
Adoro te ler e me sinto culto e curto. Curto por escver pouco. Culto por te ler e voce escrever bem.
Beijos

Jéssica disse...

Meu umbigo? Hehe. Tá seguro. Posts radicais por aqui.
Boa semana
Beijo Meu (como você diz) para Você (eu acrescento)

dän disse...

oie... voltei! beijinhos.

Diva disse...

Fogo... Tu e mesmo "selvagem" (ainda bem hehehe)
Bjs meus

Carlos qualquer coisa disse...

Se algum pentelho fica cutucando o seu ombro, e isso a incomoda, há duas maneiras de lidar com essa situação: você pode alterar a sua percepção das cutucadas, atenuando a vontade de trucidar o pentelho, ou pode aplicar o golpe "eliminação da descendência" entre as pernas do coitado. Da mesma forma são com os sentimentos que nos angustiam e entristecem: ou nos acostumamos com suas chatices ou damos logo um chute no saco deles.

Depois dessa, prefiro morrer não menos que seu amigo, hehehe.

Abraços, moça!

BABI SOLER disse...

Esta foi mais uma embriaguez da calmaria...como todas são...apesar dos diferentes motivos.