Efêmero

Mais uma madrugada, mais um tormento. Há semanas não dormia direito, aquela insônia maldita voltara de vez. Estava deitado na cama, tentando divisar os desenhos do teto, mergulhado em um escuro desesperador. Os braços cruzados apoiavam a cabeça, as pernas descansavam esticadas e os pensamentos voavam longe, perdidos em uma esquina qualquer.
Já não agüentava mais nada daquilo. Sua vida tornara-se um vazio de coisas insuportáveis. Não tinha vontade de fazer suas obrigações e, há tempos, esquecera o doce sabor do prazer, logo ele, um hedonista incurável. O trabalho era estressante; os estudos, insatisfatórios; o namoro, enjoativo; tudo era, enfim, uma grande incógnita. Sentia-se um nada errante. Estava sempre ligado no automático e, como uma máquina, fora programado para apenas executar o de sempre, nada além.
Procurava uma saída, uma razão para sumir, largar tudo. Invejava todas as pessoas que encontrava na rua, pois elas eram diferente dele, tinham outras vidas, amores e dores. Queria ser qualquer coisa, menos o que era. Uma árvore, um cachorro, um mendigo, uma pedra, não importava, apenas ansiava por uma mudança brusca.
Levantou-se e andou até a varanda, tinha um cigarro na mão e um isqueiro na outra. Acendeu-o enquanto observava o movimento na rua: seres da noite que vagavam sem rumo por recantos perigosos daquele bairro infernal. Uma mulher chamou-lhe a atenção, estava parada na esquina, tinha o cenho franzido, parecia esperar por alguém, olhando o relógio a cada dois minutos. Um carro desgovernado surgiu, repentinamente, indo na direção da moça, imprensando-a contra a parede, dividindo-a em duas partes, matando-a.
Ele observou atônito aquele desastre, viu quando o homem saiu de dentro do carro e gritou para um corpo inerte. Escutou o barulho do tiro que o atingiu na cabeça e o derrubou no chão. Um desconhecido virou a esquina, tinha o revólver ainda na mão, entrou no veículo como se nada tivesse acontecido. Deu ré e saiu cantando pneu.
Em menos de dez minutos, duas vidas haviam sido tiradas. A troco de quê? Aparentemente nada. Largou o cigarro, deixando-o cair lá embaixo, levou a mão à cabeça e percebeu que nada daquilo valia a pena: a casa, os móveis, as roupas. Ele tinha que viver, ir aos limites de suas capacidades. Superar suas frustrações.
Sentiu uma dor súbita no peito, tocou o local e percebeu o sangue que jorrava incessantemente. Conseguiu ver o carro que voltara à esquina, o homem que o olhava, ainda apontando a arma. Não teve a vida poupada, mal a viveu, não deu valor a nada. Caiu no chão e entregou-se ao inevitável. Agora, eram três.

30 comentários:

Laura disse...

meu Deus!
que tragédia!
3 vidas perdidas a troco de quê?

o mundo anda perdido ou é impressão minha?

MaxReinert disse...

Opa... que bom... não sou o único que anda com muito sangue escorrendo em seus posts...

Obrigado por me fazer sentir um pouquinho mais normal!"!!!... ou será que não?

Papos e reflexões disse...

Excepcional seu Blog, me tornarei leitor frequente.
Parabéns.

vera maya disse...

Garotaaa, muito bom!!!
Tenho andado por aqui, sempre, discretamente, sem comments, hoje nao resisti!
Brilhante sua criatividade e seu texto..
Parabéns!
Volto sempre
Bjos

Renato disse...

Se esse começo sou eu, acho que precispo mudar antes que me torne o final tbm, né.... ><


Ótimo texto, pra variar... ^^

Beijão!!

Pedro Pan disse...

, vidas ceifadas num piscar de olhos e emoções...
, beijos meus.

Diva disse...

Triste. mto triste... mas cheio de realismo cruel.
Bjs meus

Edna Federico disse...

Nossa!
Vi como se fosse um filme.
Beijo

Lizzie disse...

Vim pedir mil desculpas pela ausência! Voltei ao mundo blogueiro e dessa vez prometendo não mais me ausentar. Saudades! Vamos recuperar o contato ;)
Beijão
Felicidade, sempre!

Elza disse...

"O mundo anda tão complicado..."

"Não teve a vida poupada, mal a viveu, não deu valor a nada."

Ataualpa S.Pereira disse...

Não vou negar que me deu vontade de rir desse cara. Mas me policiei porque ele é um fruto imaginário, mas como eu gostaria de rir da cara dele.

Ok, meu bom humor também é efêmero. O que dizer?

Nasceu tarde, morreu cedo.

MaxReinert disse...

.... hum... quase!
na verdade, diretor de teatro!!!!...

hehehe...
obrigado pela visita!!!!!!

A.S. disse...

É tão ténue a linha entre a morte...

Gostei muito da tua forma de escrita. Empolga!


Um terno beijo...

J. disse...

Só enquanto eu respirar ;)

Bárbara P. disse...

Ainda bem que sangue e suco de tomate são a mesma coisa.

Edson Bezerra disse...

Poxa, não tive coragem de matar meu personagem em um texto escrito recentemente.
Que frieza a sua!!

Rafael Velasquez disse...

quase me vi no começo... mas ficou longe.

Beijo.

Carlos qualquer coisa disse...

Este não é o comentário que escrevi depois de ler o seu texto. A verdade é que escrevi tanto que mais parecia um tratado do que um comentário. Dedo nervoso, você sabe.

Mas umas das coisas que pensei e escrevi é sobre como esse personagem desperta, em minha mente, lembranças de pessoas que se assemelham a esse personagem.

Um dia todas as coisas chegam ao fim, é fato. Mas parece, muitas vezes, que ignoramos uma coisa por demais óbvia. Deixamos pender ante nossos olhos um véu que nos ilude com a idéia de que sempre existe o amanhã. Ilusão que se desfaz diante da idéia ou visão do fim. Como o fim de certos ciclos: colégio, trabalho, amores, amizades, vidas alheias.

Mas eu vejo coisas demais e não devo ser levado a sério.

Mas duas coisas que me lembro e aqui escrevo.

Estava no ônibus, havia uma velha senhora, reclamando com o motorista dos outros feito diabo: Esses jovens não respeitam os mais velhos. Deixei de falar e fazer muita coisa, agora os outros têm obrigação de me agüentar. Eu trabalhei a vida toda, agora quero é aproveitar.

Era o ultimo ano do colégio e pairava uma certa tristeza no rosto de meus amigos, escapava uma certa incerteza nas palavras deles. Eu também, confesso. Uma amiga voltou-se para mim e disse: Olha só, ontem conversei com Fulana (vou preservar o nome, se não se importar), parecíamos nos conhecer há tempos. E eu nunca falei com ela antes. O quê? É, deve ser isso mesmo. Fim de ano, fim do colégio. As pessoas fazem aquilo que queriam e tinham medo. E você não vai dizer para ela...

Fim da história.

Nossa, esse comentário deve ter ficado gigante. Dedo nervoso, você sabe.

Então um abraço, moça!

Milene Maciel disse...

Uma pena que ele tenha vivido tão pouco. Quando acordou para a vida e entendeu, realmente, o seu sentido, a morte veio novamente. E desta vez, consumada.

Perfeito o texto Babi!
=)

Beijão!

Thiago Kuerques disse...

A vida sim é efêmera...
E voce disse isso belamente.
Parabens
Eu quase chorei
Beijos

Lira disse...

Primeira visita, mas vou virar frequentador assíduo.
Gostei mto do texto apesar do jeito agressivo (leia-se forte, ah sei lá, rs*) gostei de verdade.
Vou linkar lá.

Mary Ienke disse...

Obrigada!!!
Mas o que vc escreve não tem comparação, viu???
Muito lindoooo, e esse ultimo eu adorei, me identifiquei bastante!!!
Parabéns mesmo!
;*

Fê Probst disse...

Seriam três naquele espaço de estradas e concretos. Em outros tantos lugares como aquele, outras tantas vidas seriam tiradas sem o menor porquê...

Parabéns pelos seus textos. Eles são fantásticos.

Lanark disse...

Mortes! Eu adoro contos que falam sobre a morte (todos os contos fictícios que eu escrevi falam sobre a morte, já percebeu?)

Muito bom, adorei esse texto.



*Quando eu disse que tinha me dado conta que o Carlitos sabia escrver, eu quis dizer que só depois daquele texto é que eu fui me dar conta que ele tinna um jeito próprio, que o diferenciava dos outros.


=]

Carolina disse...

Ou vivemos intensamente ou morremos tragicamente!

Vidas perdidas, mas não apenas por uma arma! Vidas perdidas por amor próprio, como a do assassino!


Beijoos =***

Edna Federico disse...

Tem um prêmio pra você lá no blog.
Beijo

Bia Ferreira disse...

É vai entender essa raça doida chamada humanóide!!!

Anônimo disse...

Nossa, eu me identifiquei muito com o texto, e apesar da minha idade, eu já me sinto como uma maquina toda manipulada, estudar de mais, trabalhar!

Não tem sido fácil.
mas espero que compense.
mto bom o texto.

as vezes tudo é por uma questão de medo.

'muda que o medo é um modo de fazer censura'

admirável de mais!
=*

jéssica.
_girl.weblogger.com.br

Paulo Fernando disse...

Quem morre, não sente a dor de viver pela morte. Ora testemunhas, ora vítimas. De sangue nas mãos, vive-se mais o perigo, é excitante cada amanhecer. Essas coisas nunca acontecem quando queremos... E, sinceramente, quem desejaria algo assim?

Admiro-te ainda mais, após essa leitura.

Bjos, minha querida!

Nana Flash disse...

O texto mais forte que você ja escreveu ate hoje. Sem sombra de duvidas.
Taum sombrio, tão pesado, mas tao ligeiro de ler.
Parabens, moça q sempre ta crescendo.
Bjs!