O Artífice

Ato I

Tinha sede de palavras, de corpos, de amor. Tinha fome, também. Queria comê-la, saboreando-a ao máximo, solvendo-a na boca até perder a razão e não mais se controlar. Olhou-a deitada na cama, o corpo nu exposto pelo lençol jogado no chão, o rosto sereno de quem já dormia há algum tempo. Perdeu a noção de quantas horas estava ali de voyeur, acompanhando cada movimento de seu corpo e o ritmo de sua respiração. Faria dela sua obra-de-arte mais ousada. Incontáveis idéias surgiram de pensamentos malucos, tantas que mal podia escolher. Pegou uma caneta, dessas que escrevem na pele, deixando marcas que não saem sem dois ou mais banhos, e voltou ao quarto munido também de algumas pedras de gelo.


Ato II

Virou-a, com cuidado, de modo que ficassem de frente um para o outro. Estava em um estado indescritível de excitação. A musa de suas mais loucas inspirações tornar-se-ia a própria arte em si. Sublime acontecimento, deliciosa constatação. Afagou-lhe os cabelos e a face adormecida, contornando, com os dedos, os lábios que tanto desejava. Havia algo de divino em seu rosto ou seria ele o Deus? Criador e criatura, estranha dicotomia e inapropriada discussão para aquele momento. Podia sentir a insanidade tomando conta de vez de seu corpo e aproveitou cada segundo disso. Excitou-lhe os mamilos, com a ajuda do gelo que trouxera, e escreveu ao redor de cada um de seus seios: “Minha louca invenção”. Sorriu maravilhado, era uma visão duplicada do paraíso. Desceu até suas pernas e aproveitou um ventre ainda intacto: “Perdição de minha vida, doce pecado que me acompanha durante todas as horas do dia”. Já não se controlava mais, abriu-lhe as pernas e rabiscou no interior de cada coxa, uma após a outra, indo do joelho à virilha: “Entrada de tentações”, “Saída de farturas”. Devagar, virou-a novamente e agora olhava uma bunda incrivelmente bem desenhada. Em uma das bandas, um “MI”; na outra, um “NHA”. Sua, ela era e ele sabia disso. Apenas dele e de ninguém mais. Aproveitou-se também de suas costas, pernas e braços. Preencheu cada espaço com suas mais libidinosas palavras. Terminou ofegante e observou seu trabalho orgulhoso. Era mesmo um artista, o próprio Michelangelo ao terminar Moisés: Parla!


Ato III - O final

Não, ela não podia falar nada, não estava nem ali. Havia o deixado dois meses antes por não suportar mais seus ataques incessantes de ciúmes e embriaguez. Lágrimas surgiram de seus olhos ao perceber o que fizera: as roupas de cama estavam cheias de frases que, passado o efeito da bebida, já não faziam sentido algum. O grande homem sucumbiu às peripécias mal contadas do amor com a ajuda da bebida, sua doce e fiel companheira de solidão. Bebeu a última gota de whisky da garrafa e terminou a noite com uma demorada masturbação antes de cair em sono profundo. Nada como um dia após o outro.

20 comentários:

Helder Hortta disse...

você me surpreende sabia. Porque você consegue colocar uma frase como esta, que é a frase mais claro do texto, mais visual e mais carregado e ao mesmo tempo, numa tremenda mistura, a mais sutil. Linda a imagem que criou. "terminou a noite com uma demorada masturbação antes de cair em sono profundo"

abraço

Rafael Velasquez disse...

mais sempre há um quarto ato... pelo menos esse não é público.

Bárbara P. disse...

É o tipo de texto que eu deveria ser proibida de ler antes do almoço.

Lindo, B.

Edna Federico disse...

Puxa...quase chorei agora de pena dele.
Texto lindo...e triste....parabéns!

Bruna Vicente disse...

É uma pena ter acabado assim.
Não esperava.
Realmente bom.
Parabéns.

Anônimo disse...

Ulalá... uma explosão de sentimento, um tufão varrendo uma vida...

Edson Bezerra disse...

Você tem o dom de deixar a cabeça de um homem viajando longe.
Pensei em estupro, pensei em necrofiia... Pensei nas coisas mais sórdidas possíveis com esse seu texto.
Mas também pensei na imagem bela de duas pessoas se amando, sem se importar com as consequências dos atos.

Mas o último ato se mostra com uma surpresa, um clima de "o que está acontecendo".

Sempre vc para dar esse nó na cabeça, sempre vc...

Renato disse...

Talvez você se pergunte porque eu não comento com maior frequência por aqui (provavelmente não, mas eu posso sonhar, né?!).

A verdade é que não é fácil pra mim.
Eu abonimo deixar comentáriod do tipo "muito legal, Beijos".

Mas também não sei bem o que escrever de seus textos. Existe algo que possa ser dito, aliás?

Desde que adentrei esse mundo blogueiro, posso contar nos dedos da mão do Lula (a mão acidentada) de quantas pessoas eu realmente aprecio os textos.

E você, minha cara, está no alto da lista.

Independente da nossa amizade que foi se construindo nesse tempo, eu sou um fã.

Acho que você verdadeiramente tem um talento. Um dom, talvez?!

Sabe usar as palavras como poucos. E isso, atualmente, vale muito!

E esse texto que acabei de ler é só mais um exemplo disso.

Não só se desenvolve magnificamente, cada palavra no seu lugar, como ainda reserva uma "surpresa" para o final.

Enfim... escrevi demais. Se você teve paciência de chegar até aqui, só falta dizer uma coisa:

Um beijão pra você!!!

^^

Monsieur Coçard disse...

"Minha, quem disse que ela foi minha? Se fosse seria rainha..."
Cartola

pois é...

beijos

Be sure your sin will find you out disse...

Simplesmente EMPOLGANTE
Fiquei cada vez mais seduzido pelo texto, querendo ler cada vez mais suas palavras que me fascinaram rapidamente como uma bala.

Nana Flash disse...

Puxa! Lembrei de um trecho de O Amor Nos Tempos do Cólera, quando Florentino Ariza escreve no ventre de uma de suas mulheres "esta pomba eh minha". Muito lindo :~~ seu texto esta ficando cada vez mais poetico.
Bjs!

Elza disse...

Não li, devorei!!
e como algué,m aqui em cima disse, sempre há um próximo ato, to esperando por ele!!!!


=]

Ataualpa S.Pereira disse...

Voyeur. Musa. É Curioso.

No começo as coisas deveras são mais coloridas, seja na arte, seja numa relação afetiva.

De fato em dado momento o artista sobrepõe-se sobre a arte, invoca-a de maneira forçada, pouco lúcida. Torna-se então o processo um civlo vicioso, cuja a satisfação vem do sentimento próprio de ser artista, e não de poder ainda sê-lo.

Um grande abraço!

Memories disse...

B. estou a quinze minutos tentando comentar e não sai nada.

Este texto está difícil comentar. É lindo e um tanto cruel, sublime e ao mesmo tempo profano. Este texto é no mínimo... real demais.
Só posso dizer Parabéns.

Beijos
Tadeu

Lays disse...

Olá, td bem?
Nossa, muito bom o texto, muito bom mesmo...
Desculpa por não ter entrado ultimamente, mas é que tá meio corrida a vida por aki...Tentarei entrar mais, pois adoro seu blog...
Postei no meu...
Bjinhus
Lays

Paulo Fernando disse...

Hummmmmmmmmmmmm...
Texto bem machão, escrito com a sensibilidade de uma lady! Só vc mesmo, minha linda pernambucana!
Vóvó já dizia: "enquanto o homem tiver língua e dedos, nenhuma mulher poderá lhe pôr medo". Contudo, faço uma ressalva: no caso da mulher pôr medo, sobra o "famoso cinco contra um"... ahahha

Bjos, minha querinha!

Mila disse...

Esse é mais um para a coleção de textos que deveriam virar videos.
Me pareceu uma imagem muito bonita
;D

Fernanda Ribeiro disse...

Uau!
Que texto hein?
Adorei, muito legal...

Continueu assim, vc vai loooonge garota!

Bye!

~*

Lanark disse...

Mais um conto subversivo e angustiante.

Também pensei que o protagonista fosse fazer coisas horríveis, esse conto saiu um belo suspense psicológico acima de tudo!

Lüb disse...

Ae,

me identifiquei,

tirando a parte de escrever ^^