Cálice

(uma parceria com o querido Leandro Lee)


Não havia mais dúvidas quanto ao destino de seus atos. Andava com passos largos e firmes, sem rodeios ou hesitações, agora era tudo ou nada. Não sabia se faria o certo, mas tinha consigo tudo que precisaria e mais uns extras para eventuais imprevistos. Cabeça baixa, entrou sorrateiramente, ninguém por perto. Melhor assim.
O ar pesava, de certa forma podia sentir o cheiro que mais desejava, ah o sexo feminino, pode existir melhores lábios para serem beijados? Não chegou nem a olhar, sua mão foi mais rápida, a irracionalidade mais forte e em dois movimentos já arrancava o primeiro suspiro. Manipulava de forma quase grotesca seu único desejo doentio...
Aproveitou-a ao máximo, cada milímetro de pele, cada orifício, cada gemido, abusou-a. Sem pudor algum, nem limite, deu-lhe um prazer tremendo. Estavam sós e ele conseguiu ir além daquilo que queria, ficou louco, alucinado. Em um último momento de embriaguez, pegou a faca que trouxera e usou-a, pequenos cortes sangravam no corpo nu. Ele olhou-a extasiado, ela tremia de medo.
Era um tremor paralisante, ao mesmo tempo excitante, doente e delicioso. A cada novo corte se permitia a mais, não se saciava em apenas abri-la mais e mais, metia os dedos, o sexo a língua, penetrou-a em cada seio, pelo o que deveria ser o umbigo. Ah! Não, não pode se limitar, era um artista, rasgou-a enfim do ânus ao diafragma abrindo-a em uma gloriosa escultura como uma vaca pronta para o frigorífico, era sim. Não passava de uma vaca antes, não deveria morrer de outra forma.
Divertiu-se horrores, estava todo sujo de sangue, gozo e saliva. A faca na mão, respiração ofegante, olhar vidrado, segurando um corpo despedaçado, sem nenhum sinal de vida. Parou de repente, olhou a cena toda, largou aquilo e correu no banheiro. Vomitou muito e depois tomou um banho demorado, não conseguia entender certos impulsos que tinha. Voltou à desordem e pegou suas coisas, saiu sem nem olhar pra trás.
Quando deu por si já estava correndo, mas afinal o que estou fazendo? Então diminuiu aos poucos tentando dirigir normalmente, absorto, movido por uma certa inércia delirante. Aos poucos foi se afundando no banco, como se quisesse se esconder em algo, dentro do banco, dentro de si mesmo, louco! Louco, sim estava louco.
Porque, diabos, havia feito aquilo? Sadismo arrogante e prepotente, desejo mórbido e absurdo! Ele não tinha esse direito, o que ela fizera afinal? Nada! Acelerou o carro, fechou os olhos e indo de encontro a um muro distante, deixou-se levar. Provocou um barulho imenso, as pessoas olhando curiosas, aliviou sua culpa com a própria morte. Ou não...

14 comentários:

Rachs disse...

Percebi algo...
eu regredi pra infância q vc adentrou de vez os textos que me deixam com vergonha! (claro... regredi lembra?!)
bjos!

Edson Bezerra disse...

Cacete! Estou ainda aqui parado, enojado e surpreso!
Nem consegui ler o texto duas vezes. Só de imaginar a cena já me dá ansias.
Se era essa a inteção, em mim atingiu.

Caraca...

Edson Bezerra disse...

Que desculpas, minha cara!
Ficou bom! Só que eu tenho vertigens só de pensar em sangue e cortes! (rs)

Beijão

Monsieur Coçard disse...

Berenice... fico curioso para saber o método de criação ao qual vocês recorrem, tendo em vista que a maioria dos blogueiros não moram perto ou se conhecem pessoalmente... :)

beijos

obs: muito bom e intenso!

Ataualpa S.Pereira disse...

Fantástico!

[...] Como Deus e a imortalidade não existem, é permitido ao homem novo tornar-se um homem-deus, seja ele o único no mundo a viver assim."

A barreira entre os impulsos do prazer e o abominável é tão frágil, tão frágil...

Congratulações.

Natalia disse...

Oi lindinha,me desculpe por não ter passado aqui antes... É a correria! Mal sabia o que estava perdendo.. Quando a Srta. publica um livro hein? Arrasa demais...

Beijo francesinha

Laura disse...

simplesmente horripilante td essa cena...

oO

sim, não acho outra palavra pra descrever essa sensação. Horripilante!

Renato disse...

putz....

sensacional, do ponto de vista literário....

conseguiu passar todo o terror da cena... com algo que começa "sexy" e termina aterrador...

vc e o senhor Lee escreveram um "belo" texto, sem dúvida....

não para pessoas de estômago fraco, mas ainda assim....

Beijossss!!!!!

Bons Sonhos!!!

Monsieur Coçard disse...

sim senhra, todos os temas, Bastiana...

beijos

Caroline Bigarel disse...

É, acho que eu faria o mesmo com algum impulso assim. Tenho pavor a sangue ou sadismos... ¬¬

Mas tbm, quem é que irá dizer que se pode controlar o ecstasy de um momento ?

Lanark disse...

Uau, isso sim é literatura porn gore! Aquele meu poema parece história infantil perto do seu conto!


Parabéns, ficou soberbo.


*É, pensando bem, tem uns pontos na carta que fazem parecer que ela é uma crônica fictícia. Mas pode ser que o tal ateu fosse uma pessoa inteligente.

**Mandei um scrap pro moderador que me deu o código da "medalha" de quarto lugar. Ele pode ter se confundido.

Bia Ferreira disse...

Uau!!! estás uma contista muy talentosa... rsss
Boa narrativa, gostei!!! Devia fazer sempre...
Ah, Bia cansou das férias... beijo

Júlim Oliveira disse...

Lindo, feio, não sei o que dizer sobre este texto...simplesmente surpreendente e maravilhoso... B. Lispector?!

Mila disse...

Sufocante esse foi.
Não consegui ler duas vezes, apesar de muito bom!

;*