Cinco e trinta da manhã. Ela abriu os olhos devagar, ainda entorpecida pelo sono. O quarto começando a tomar forma novamente, fracamente iluminado pela luz de um sol que ainda termina de nascer. Olhou as roupas jogadas no chão, cada peça em um canto diferente do lugar. Sorriu sentindo a face aquecer e tomar um leve tom róseo. Ainda lembrava de cada minuto da noite anterior, podia jurar que ainda o sentia tomando seu corpo. Estava tão entregue, feliz e apaixonada. Tão completa que nada mais podia querer. Nada mesmo.
Virou-se na cama, encontrou-o dormindo. Tinha a feição tranqüila, um ar de quem estava feliz, sentindo-se leve. Deveria estar sonhando com algo muito bom. Com ela, talvez. Percebeu outro sorriso tomando conta de si. Contornou o rosto dele com os dedos. A sobrancelha, os olhos, o nariz, a boca. Parou e deu-lhe um leve beijo nos lábios. Não queria acordá-lo. Amava cada parte daquele homem, cada centímetro. Podia facilmente passar dias e dias apenas o olhando.
Pensou em agradá-lo um pouco. Levantou-se devagar e o cobriu com um lençol. Saiu do quarto sorrateiramente, encostou a porta. Foi à cozinha, sentindo o vento esfriar um pouco o seu corpo ainda nu. Arrepiou-se, mas não se importou muito com isso. Abriu a geladeira, pegou um punhado de morangos, uvas e cerejas. Arrumou as frutas em cima de uma bandeja prateada e pequena. A sua preferida. Fez um suco de laranja sem açúcar, exatamente como ele gostava. Colocou um pedaço do seu bolo favorito e voltou ao quarto, com todo o cuidado para não derrubar nada. Estava radiante quando abriu a porta. Os cabelos negros estavam soltos emoldurando sua face. Era linda, sentia-se bela como nunca havia sentido antes.
Fechou a porta com o pé e olhou em direção à cama procurando o pedaço de si mesma que havia deixado ali, embalado por um sono gostoso. Soltou a bandeja bruscamente que caiu no chão fazendo um barulho enorme. Gritou alto. Tremeu. Com os olhos fixos em um mesmo ponto, foi esmorecendo, encolhendo-se. Sentou-se no chão. Não podia acreditar que aquele pesadelo estava acontecendo de novo. Não podia ser!
Mas era. Ela tinha que aceitar. Não havia ninguém ali, ela fantasiara tudo novamente. Perdera o controle de seu psicológico, imaginara absolutamente tudo. Lágrimas escorriam incessantemente de seus olhos. Ah, doença infernal! Arrastou-se até o criado-mudo e pegou o remédio. Maldita droga, sempre a fazia perder o sentido das coisas. Derramou uma quantidade absurda de comprimidos na palma da mão e engoliu de vez. Deitou-se no chão, sentindo a cerâmica fria em contato com a pele. Foi ficando tonta. O quarto girava com uma velocidade absurda. Ou seria ela quem estava rodando? Abriu os braços e entregou-se a uma morte lenta, prazerosa e indolor. Seu sofrimento acabara e já havia passado da hora disso acontecer.

20 comentários:

Thiago Kuerques disse...

Sensacional é pouco.

Isso seria ótimo adaptado para o vídeo. Tudo sem palavras. No íntimo de uma mente. Eu ou viciado nisso.
Se gostei?

Demais. Acima de tudo o detalhes bem descritos
Beijos linda

Old Memories disse...

Insanamente poético. Uma descrição perfeita do elemento principal da loucura, o amor. Cada detalhe mostra a força de um amor e a decepção de perdê-lo de forma brusca e um tanto cruel, lindo. Concordo com o comentário anterior, este texto merece uma versão em vídeo, sem nenhuma palavra, apenas uma música suave, o resto seria contado pela intensidade das imagens.
Sobre o post anterior que não tive tempo de comentar. Lembrou-me algum dos quadrinhos de Milo Manara. Erótico, intenso, proibido e nada pudico apesar de belo.
Beijos

Tadeu

o alquimista disse...

Os Deuses não vivem na lagoa, apenas recolhem o pranto, transformado manto de água em certas noites de encanto.


Bom domingo...


Doce beijo

Ataualpa S.Pereira disse...

Tal uma subida numa elevada cobertura, a visão do horizonte, o torpe salto, a queda.

Quem diria a princípio que seria um suicídio?

Um grande abraço!

Sebastiao Moura disse...

Surpreendeste-me.

Caroline Bigarel disse...

Sempre um prazer muito grande ler seus contos. Potencial para raros.

Final surpreendente, pelo menos para mim, que estava imaginando um outro. =]

inté mais ler!

Monsieur Coçard disse...

aeeeeeeeeeee
mais um post excelente!
beatrice, você só se supera! mas vê se não fica com a bola cheia demais hein? ¬¬

beijos

Bárbara P. disse...

Se nesse momento, o telefone tocasse e a secretária eletrônica atendesse. Ele, dizendo que a amava e que estava indo até ela.

Bárbara P. disse...

Pessoa querida de mesmo nome, é óbvio que te citei lá no Theek Hai!.

Beijos

Ácido Poético disse...

S E N S A C I O N A L , moça.

Um beijo
Brunø

Nana Flash disse...

Sacanagem!! Eu ja tava toda feliz pela moça :(
Adouro o seu estilo de escrita, que consegue ser breve sem ser seco :)
E oooh, nada contra estagiários, soh contra as pessoas que contratam estagiarios como mao de obra barata e naum treina o pessoal direitinho.
Bj!

Jô Beckman disse...

Genial! Adoro seus textos!
beijos

Moura ao Luar disse...

Lindoooo. Porque a falta de alguém nos enlouquece, aquele hábito, a necessidade, a dor da perda, do não sentir.

Edson Bezerra disse...

E lá fui eu esperarndo o tão previsível final e.... onde?
Me quebrou, que legal mesmo.
Inesperado.

Parabéns. Cada dia gosto mais desse espaço.

Beijão

Paulo Fernando disse...

Por que eles têm que morrer no final? Todos deveriam ser imortais, pelo menos um dia na vida...
bjos!

Kuriozza disse...

Já li esse texto umas 15 vezes e na verdade ainda não sei o que dizer... Concordo com o rapaz que diz que deveria ser adaptado para o vídeo. Já pensou, um curta metragem!?

Essa loucura contagia todos os seus leitores. Os seus devaneios são simplesmente brilhantes.

Adoro!

D. Coelho disse...

Texto muito bem escrito e de uma sensibilidade imensa! Vou finalmente te linkar, ok? =P

E respondendo o seu comentário: não perdi o gosto pela coisa, apenas faz muito tempo que não faço isso na minha casa, com a família presente. =P

Mila disse...

Já lia teu blog antigo a tempos, achei ele meio que sem querer, mas horas li tudo de uns 2 blogs seus, mas não sabia da existência desse.

Caí aqui meio de paraquedas, mas virarei leitora assídua!

Parabéns!
;*

Renata disse...

Encontrei seu blog por caso , e gostei muito ,bem escrito !!
Parabéns

bjs

Paulo Fernando disse...

Quero mais loucuras devaneadas! hahaha

Cadê vc, minha doce princesa?

Bjos!