Eu amo você. Essa é a verdade nua, crua, pura. Eu ainda amo você e ninguém sabe o quanto isso me dói. Dói por que procuro a sua boca em todos os rostos que vejo, beijo, desejo. Dói por que procuro o seu calor em todos os corpos que abraço, amasso, desfaço. Eu acho, mas não encontro. Por que nenhum deles é você. Por que ninguém nunca vai ser você e eu sempre vou pensar em como tudo era melhor antigamente: mais gostoso, mais quente, mais sofrido, mais desesperado, mais intenso... mais vivo. E você? Ah, você não vai estar aqui. Você não vai estar nem perto daqui. Pior, você já está em outra dimensão, outro mundo. Você passou uma borracha no seu passado e me apagou junto. Eu agora nem lembrança sou, nem uma memória bonita (ou feia). Não causo aquela nostalgia gostosa que você me causa. Não sou nada, não fui nada. Não sou ninguém. Morri e sequer me dei conta. Só depois quando você fez questão de me mostrar o atestado de óbito. E quanto a dor? Eu a tranco, engulo a chave da porta e me torno a mulher mais forte e insensível do mundo. Obrigada.

Ao grande artista

Confesso que fiquei extremamente depressiva com a notícia da morte do multifacetado e amado Lula Côrtes. Sinto-me privilegiada por ter conhecido a figura inesquecível que ele foi e por ter produzido um documentário, que no final das contas, rodou e fluiu na melodia das palavras e da voz dele. Poucas pessoas foram tão gentis e sinceras comigo. Raras têm ou tiveram a capacidade artística -enorme- e criatividade que ele tinha. Aquilo sim era ser artista. Ser por inteiro, o dia todo e não só em momentos de apresentações ou lançamentos. Fora que era um charme mesmo com a idade que tinha, as dificuldades da doença que teve e a vida desregrada -livre- que levou. Foi charmoso até me roubando um beijo estalado na bochecha em troca de uma foto sorridente ao meu lado. Foto essa que guardo até hoje com o maior carinho do mundo, assim como o documentário e a lembrança de um ser humano extraordinário. Não sei como expressar a dor que ainda sinto... Não tenho mais palavras, só lágrimas. Lembro da última coisa que eu disse depois do nosso último dia de filmagem.

"Estou apaixonada por esse homem e com uma inveja louca da história de amor e cumplicidade que ele teve com Kátia..."

Inefável Lula Côrtes.

Minhas sinceras condolências aos familiares dele, especialmente aos que conheci. Os filhos, a ex-mulher, Kátia Mesel, todos. Se a dor dessa perda para mim é lancinante, só me resta imaginar o que eles estão sentindo. Deixemos que o luto tome conta de nós pelo tempo que for preciso. Choremos sem vergonha das nossas lágrimas doídas, assim estaremos lavando as tristezas para fora de nós e guardando apenas as lembranças boas, aquelas que deixam um sorriso bobo e fora de hora no rosto da gente.


"E pra minha alma não criar ferrugem / Salto para as nuvens" (Lula Côrtes)
Que faças uma boa viagem, meu mestre querido. Continuo admirando o teu salto e a tua obra.


PS: O documentário chama-se "Eles sonharam abraçar o mundo".
Preciso cortar meu cordão umbilical. Preciso de uma tesoura urgente. Aliás, de duas. Não aguento mais sofrer pelos outros e por causa dos outros. O problema, ou a pior parte dele, é que os "outros" não são outros quaisquer, mas aqueles culpados pela minha existência. Aqueles a quem costumeiramente chamamos de pai e mãe. Não sei o que é ter uma família "normal e feliz" (se é que há alguma por aí digna de tais títulos). Aquelas da ficção, as que aparecem em comercial de televisão e novela. Também não sei o que é ter pais molestadores ou criminosos. Não estou nem em um extremo, nem no outro. Mas sofro assim mesmo, na intensidade que me abate e à minha maneira. Desde que me conheço por gente sofro por falta e excesso de amor. Pode parecer estranho, mas é verdade. Por um lado, vivo pisando em ovos, procurando aprovação, buscando abraços e sorrisos de uma pedra de gelo; por outro, vivo me preocupando, me martirizando, me colocando no lugar que deveria ser dela, sofrendo junto com ela, apanhando por dela, querendo ajudar e me vendo impotente. Não posso mais deixar que atitudes alheias à minha vontade sejam condicionadores de minha felicidade ou depressão, de meu estado de espírito. Assim não há Prozac que funcione, nem psiquiatra ou análise que dê jeito. Não posso mais tomar para mim a dor e os problemas dos outros. Não posso mais. Não posso mais respirar. Estou sufocada pelo meu próprio choro, aos soluços, mergulhada em minha dor e não vejo a quem recorrer. Não vejo em que me agarrar pela minha vida, ou melhor, pela minha sanidade. Me vejo só a lutar como louca para ser o que esperam que eu seja. Me vejo falhando e errando apesar de todos os esforços. Me vejo inútil e incapaz. Eu não quero mais me ver, por favor parem de atirar espelhos em mim.
Um presente do Sr. D. Deleitem-se: Barbárie em Bárbara.
Nomes? Para quê? Eu não sou a Bárbara, não. Sou mais do que diz uma certidão de nascimento ou uma carteira de identidade. Talvez seja bárbara para alguns. Mas eu não caibo em carteiras, nem em palavras. Eu não me resumo a rótulos. Sou uma mutação e isso é culpa dos meus pais. Sou o reflexo que vejo no espelho. Sou o texto que escrevi, o livro que li, o filme que assisti, a música que escutei, a comida que comi. Sou o que você vê e o que você fala. Sou isso. Mas não só isso. Sou também aquilo, aquela, ela, eu. Sou tanto que não sou nada. Sou o agora, o instante, o presente. O que já foi, o que ainda vai ser, eu não sou. Sou um frame, uma foto. Uma fração de realidade, um momento. O que fui, não sou mais, é passado, já foi. Eu fui. Eu sou por que você é e você é por que eu sou. Sem você, eu não seria eu. Sem você, eu seria outra... para outros ou nada... para ninguém. O que serei? Não importa. Não me importa. Por que eu serei, eu sei. Serei cadáver, serei pó, serei poeira. Cedo ou tarde. Eu serei.