Eu me apaixonei por uma mulher

Sim, isso mesmo que você leu. Eu me apaixonei por uma mulher e a vida nunca mais foi a mesma.
Era noite e o reflexo do corpo dela me dizia tudo aquilo que sempre quis ouvir. Os cabelos curtos, os olhos enormes, daqueles que tomam quase o rosto inteiro de uma pessoa, boca carnuda e estilo só dela. Estranho, único, singular.
As tatuagens que a adornavam eram meros detalhes, serviam como indícios de sua personalidade, um convite para um passeio no mundo fantástico que era só dela.
Pouco importava se ela era uma grande mistura de coisas que antes considerava imiscíveis ou se eu não entendia como a tristeza que irradiava de seus olhos era compatível com a sexualidade pulsante que seu corpo emitia.
Tão menina e ao mesmo tempo tão mulher. Frágil, sensível e chorosa, mas forte, determinada e guerreira. Não importa o tamanho do muro que tenha construído para se proteger, ainda é visível todo o sentimento do mundo que carrega dentro de si.
Alguém que desperta meu lado protetor e que, ao mesmo tempo, me dá toda a segurança que preciso.
Engraçado como não a tinha notado antes ou será que não queria notá-la? Não conseguia? Estava cega, talvez.
Só sei que de repente me dei conta do quanto ela é incrível.
Seu jeito de olhar para baixo enquanto ri um sorriso tímido, de canto de boca, é extremamente cativante. Assim como seu impulso de usar uma roupa colada e se maquiar em um dia e no outro, estar com roupas largas e sem um pingo de tinta no rosto. Um comportamento quase que bipolar.
De tanto observar, já notei que ela tem uma coleção de tiques. Um revirar de olhos inconsciente, um morder de dedos compulsivo e até os suspiros que emite por falta de paciência quando claramente queria estar fazendo outra coisa em outro lugar, mas se prende ali, seja lá pelo motivo que for.
Ela tem me provocado inúmeros sorrisos que feliz ou infelizmente não consigo controlar.
Os mil e quatrocentos livros de sua estante falam mais alto do que ela jamais poderia e variam de um clássico infantil ao mais picante e controverso título da literatura erótica.
Acho incrível como ela consegue amar matemática, física, filosofia e história, tudo ao mesmo tempo. Sem falar nas línguas, é uma amante do português ao inglês, passando pelo francês e se demorando.
Seu gosto musical é refinado. Só escuta clássicos da MPB e do rock. Mas na academia vai até o chão com o funk mais sujo que tocar por lá.
Descobri que adoro passar tempo sozinha com ela e me amarro na determinação que ela tem de não se entregar a rótulos e não permitir que a limitem de forma alguma.
Com ela me sinto livre, como se finalmente em paz com tudo que sou e tudo que ela me permite ser.
Quando eu me apaixonei por essa mulher, senti na pele o que é o amor de verdade.
Descobri a importância do amor-próprio.
Sim, eu me apaixonei por uma mulher.
E essa mulher sou eu.
O dia amanheceu  C H O R A N D O

                                C H O R     A N D O
                                C H     O R A N D O 
                                C H O R      A N D O
                                 C H O R A N D O
                                              S Ó.

Teu nome é meu

... e teu corpo também.

Duas risadas distintas ecoavam no duplex espaçoso. As luzes deixavam o ambiente convidativo ao sexo, mas a vontade de explorar era mais urgente naquele momento. Opulência, riqueza e ostentação escorriam pelas paredes daquele lugar.

"Olha isso!"

Diante de nós dois estava uma enorme hidromassagem, robes felpudos descasavam em cima do frigobar e sais de banho cheirosos enfeitavam a beirada da luxuosa banheira. Nos entreolhamos e rimos mais uma vez. Não pertencíamos àquele lugar, mas ali estávamos. Por uma noite, tudo aquilo seria nosso.

"Agora vem cá, vem."

Tu me arrastaste para o segundo andar e, da mochila, tiraste as faixas pretas do teu kimono junto com algumas gravatas antigas do teu armário. Um tremor percorreu todo o meu corpo e uma forte onda de ansiedade tomou conta de mim.

"Não sei o que tu estavas esperando."

Ainda me arrisco a dizer enquanto vejo teus lábios se transformando em um sorriso sacana. Eu ia ter o que queria e tu, pela primeira vez, irias ser verdadeiramente e oficialmente introduzido aos prazeres do sadomasoquismo.

"Fica em pé, de costas para mim, e me dá seus braços."

Eu obedeci e senti uma das gravatas passando pelos meus pulsos e unindo minhas mãos à força. Testei, tentando separá-las sem sucesso. Tu eras naturalmente bom nisso. E eu estava entregue às tuas vontades. Logo, até minha visão era tua, quando uma outra gravata foi amarrada sobre os meus olhos.

"Estou gostando disso."

Um sonoro tapa me desequilibrou e eu ri, caindo para frente e ficando com o corpo metade na cama, metade para fora dela. Senti tuas mãos puxando minhas coxas e me colocando em pé, com a parte de cima encostada no colchão e a bunda exposta, nua e empinada para cima.

"Que visão da porra..."

Ouvi você cochichar para si mesmo, maravilhado com o quadro pintado na tua frente. A entrega total de quem confiava cem porcento em ti e queria ser uma boneca em tuas mãos.

"Eu..."

Fui interrompida por outro tapa, mais forte desta vez, e ouvi o barulho familiar do zíper sendo aberto enquanto tu tiravas tuas roupas e as jogava de qualquer jeito pelo chão.

"Cala a boca."

Ordenaste e te posicionaste atrás de mim. Tuas coxas encostaram nas minhas e eu já me sentia completamente molhada. Tuas mãos percorreram meu corpo lentamente, da parte de baixo das minhas costas ao meu pescoço e depois, curiosos, os dedos exploraram cada centímetro da minha boceta e do meu cu, saindo completamente ensopados e escorregadios.

"Mas já está pronta para ser comida, minha puta?"

Era só ouvir a tua voz que eu ficava pronta. Tu sempre me deixaste louca de tesão, louca de vontade de chupar teu pau e de senti-lo penetrando todos os meus orifícios. E foi isso que fizeste. Não antes de usar tua faixa nas minhas costas, coxas e nádegas, fazendo da minha pele alva, um tom bonito de vermelho e roxo.
Não lembro a última vez que olhei em teu rosto e te vi sorrir. Não um sorriso qualquer, mas aqueles que tu costumavas dar logo que nos conhecemos. Um sorriso que chegava a teus olhos e os fazia brilhar.

Não lembro a última vez que, após uma situação difícil ou dolorosa, ouvi tuas palavras roucas, embargadas pela emoção, declarar teu amor e gratidão pela companhia, parceria e cuidado contigo.

Não lembro a última vez que te vi desesperado, gritando meu nome ou chorando, pedindo ajuda enquanto eu corria ou saia de onde estava pra atender aos teus chamados com o coração apertado de preocupação.

Não lembro a última vez que senti teu corpo tremer sobre o meu no vai e vem das nossas almas ou sob o carinho das minhas mãos e língua em ti. Teu orgasmo sempre tão potente, teus gemidos de prazer soavam como uma oração, súplicas a quem te aparecia como uma Deusa encarnada do prazer.

Ao dizer que não lembro, eu minto. Lembro de cada minuto, cada segundo ao teu lado durante nossa longa caminhada. Lembro de nossas tristezas, nossas alegrias, nossas brigas e reconciliações. Lembro de absolutamente tudo desde que nos conhecemos até o minuto em que me disseste adeus. Pessoalmente e por telefone.

Ao cantar aos quatro ventos que te superei e estou livre de ti, também minto. Tento me defender do que a tua lembrança faz comigo. Ela me quebra e eu me arrasto por aí do jeito que dá com o que me resta, o que é menos de metade do que fui contigo. Sozinha, partida, perdida.

Ao dizer que não te amo mais, eu minto descaradamente. Meu amor continua aqui, guardado a sete chaves, esperando a chance de se fazer ouvir, de bradar ao mundo que ele existe e que é teu. Teu e de mais ninguém.

Teu nome é loucura

 ... e teu sobrenome é desejo.

Braços amigos nos meus ombros. Mãos mal-intencionadas levando álcool aos meus lábios, temperando cada gesto com sorrisos carregados de segundas intenções que contrastavam com os cheiros inocentes na minha nuca.

"Você é foda, garota."

Amigos. Risadas. Cerveja. Música. Muita música. Filmes pornôs em grandes telões me hipnotizavam: bocetas cabeludas na cara de todos que ali estavam, mulheres completamente fora do padrão que se masturbavam e transavam para quem quisesse ver. Maconha. Muita maconha. Corpos ansiando por carícias. E tu.

"Até quando vais continuar me provocando assim?"

Algumas palavras impacientes minhas e pronto. Tua mão me arrastou para longe dos conhecidos. Teu corpo apertando o meu contra a parede com urgência. Dezenas de pessoas nos rodeando, mas estávamos sós ali, em uma neblina de luxúria, perdidos no fogo um do outro. Eu e tu. Dedos ousados que apertavam, dominavam e exploravam lugares ainda cobertos, enterrados bem fundo enquanto tua língua soltava os mais impuros elogios e ameaças à minha sanidade.

"Como eu sonhei em ter você assim, anos e anos querendo pegar, usar, foder você..."

Meu nome saindo da tua boca repetidas vezes em um cenário extremamente delicioso deixou minha boceta encharcada e eu ceguei. Permiti que me usasses como bem quiseste e não me arrependo, pelo contrário, quero mais. Sempre mais. Muito mais.

"Gosta que vejam você ser usada assim, cachorrinha, com meu dedo na sua boceta e minha língua no seu peito?"

Pra caralho. Gosto que me uses assim, me tires o juízo com teus beijos, mordidas e apertões. As marcas que deixaste em mim, carrego-as até hoje, na memória. Já as físicas, carreguei-as com orgulho por uma semana ou duas. Sinto saudades delas.

"Puta, puta, puta."

Naquele momento fui sim. Tua puta. A mais puta das putas que já habitaram este planeta. Quando finalmente me empurraste para a beira daquele rio, onde o breu encobria nossos atos libidinosos, me peguei sorrindo e ansiosamente esperando que me tomaste de verdade.

"Me fode, caralho."

E teu pau estava enfiado em mim. Enquanto tu me espremia contra aquela bendita árvore. Calça no chão, calcinha de lado, dignidade longe. Pouco me importava. O que eu queria estava em mim. Nossos gemidos, acompanhados de outros tantos naquele bar, compuseram uma sinfonia bacante. E tu, o maestro, me comeste com uma fome que é difícil de esquecer e me falaste as coisas mais imundas e tesudas que já ouvi de alguém.